O drama de Canudos, que no fim do século passado, se derramou pelas colunas dos jornais, que foi comentado, discutido, defendido e atacado, decorrido aproximadamente 80 anos, é ainda assunto palpitante para o historiador e para o sociólogo. E também para o político. Sua constante presença deve-se ao livro imortal de Euclides da Cunha. Não fossem Os Sertões e sua presença não seria tão viva e tão sedutora. A história o registraria, é certo, e com destaque.
Mas este registro e este destaque jamais teriam atingido a notável repercussão que tiveram. É que o gênio lavrou em períodos de bronze a trágica epopéia daquela gente que seguiu pelo sertão o celebre Antônio Vicente Mendes Maciel, que se tornaria conhecido por Antônio Conselheiro.
Entretanto o gênio estava muito perto do drama. Seus olhos viram muito.
Sua inteligência descortinou horizontes. Sua acuidade penetrou fundo aquele mundo bárbaro e sertanejo. Mas porque estava muito perto do drama, não poude ver tudo embora tivesse olhos de ver muito.
O professor Ataliba Nogueira vem de publicar Antônio Conselheiro e Canudos, onde nos mostra o personagem que chegou a abalar o Brasil nos primeiros anos da República, sob aspecto bem diferente daquele que comumente é apresentado.
Ataliba Nogueira tem o amor da verdade. Quando defende uma causa o faz com a consciência do advogado correto e com a firmeza do mestre que sabe ler e interpretar o documento. E é de um documento inédito, que tirou os traços morais e intelectuais de um homem muito falado e bem pouco conhecido.
O documento, na realidade, é uma obra manuscrita traçada pela letra firme e clara de Antônio Conselheiro.
Ataliba Nogueira concluiu com boa lógica que Euclides não chegou a ler o manuscrito, pois quando o recebeu estava preocupado com seu concurso para lente do Colégio D. Pedro II e, mais do que isso, atormentado pelo problema familiar que acabaria em tragédia.
Ataliba Nogueira ao examiná-lo o faz com o espírito de uma revisão histórica. E o consegue com brilho e segurança.

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