Em trinta anos de trabalho duro, assombrado pelas preocupações com dinheiro, Honoré de Balzac (1799-1850) publicou A comédia humana, monumento romanesco sem igual.
Em quase uma centena de romances, novelas e contos deu vida a dezenas de personagens que se transformaram em mitos – Eugénie Grandet, o pai Goriot, o coronel Chabert, Eugène de Rastignac, Lucien de Rubempré, a prima Bette etc.
Escrevendo obstinadamente, ele buscou a fama, a riqueza e a glória e sonhou com o amor da sua vida: uma aristocrata polonesa com quem se casaria somente às vésperas da própria morte. Balzac, ou o destino de um gênio.

As árvores cresceram no cemitério Père-Lachaise, e, hoje, quando se sobe até o túmulo de Balzac, situado na ladeira que dá continuidade ao caminho de Montlouis, não se tem mais a vista panorâmica sobre a capital que desfrutava o seu jovem herói Eugène de Rastignac na última página de O pai Goriot.
O monumento é modesto. Foi colocada ali uma réplica em bronze do busto realizado por David d’Angers, do qual tanto se orgulhava. Na sua frente, repousa Gérard de Nerval. À sua direita, um certo A. Bazin, falecido em 23 de agosto de 1850, cinco dias depois dele.
Não longe dali, encontramos as sepulturas do escritor Nodier, do pintor Delacroix, do escultor Barye, de François Buloz, fundador da Revue des Deux Mondes, do historiador Michelet, de Casemir Delavigne, considerado um grande dramaturgo. Mais embaixo, a de Frédéric Soulié, antiga glória do romance popular mas cujo nome hoje mal pode ser lido na pedra.
E tudo em torno dessa parte antiga do cemitério são condessas e generais, industriais e ministros, administradores e burgueses, com datas, inscrições, bustos, todas as vaidades de um certo tempo. Em resumo, Honoré de Balzac dorme entre as suas criaturas.
Não nos surpreenderíamos de nos deparar com os nomes de Barão Nucingen ou do procurador Derville, de Anastasie de Restaud ou de Henri de Marsay.
Contar a vida de Balzac é contar como um homem de origem provinciana e modesta (a sua elegante preposição “de” não deve nos iludir) consegue dar vida a um mundo, espelhar toda uma época numa obra romanesca múltipla, colorida, toda feita de luz e sombra.
É reviver o desafio titânico que um criador instintivo e poderoso lançou ao seu tempo – e a si mesmo –, sonhando com a glória e repleto de dívidas, amante e apaixonado, simultaneamente epicurista e ingênuo.
É retraçar um combate de duas décadas no fim do qual ele desmoronou, arrasado, para não mais se levantar, acreditando talvez ter errado o alvo quando na verdade triunfava.

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