Para Joseph Conrad (1857-1924), a literatura foi sempre a forma mais radical e perigosa de viagem. Viajante incansável, preso ao fascínio do mar, Conrad gostava de estar na solidão dos oceanos, uma sombra a flutuar no coração de um mundo feito só de água, a linha do horizonte como última divisa a partir da qual, ele acreditava, ou queria acreditar, nada mais existia. Havia um gozo, aflitivo, nesse isolamento extremo, prazer que, mais tarde, ele transformou em matéria literária. Marujo e escritor, dupla identidade que jamais se perdeu. Como navegante, esteve na costa italiana, em Sidney, Bombay, e nas ilhas de Cingapura, na extremidade da península de Malaca, Borneo, no arquipélago indo-malaio, e nas Ilhas Maurício, no sudoeste do Oceano Índico. Tido, em geral, e de modo depreciativo, como um “romancista de aventuras”, Conrad foi, muito mais que isso, um escritor que escolheu como matéria-prima a existência e a torrente de situações extremas e irrefreáveis que a compõem. Apesar da preferência pelas atmosferas densas e sinistras, foi um homem que acreditou obstinadamente na vida e que, para devassá-la, ainda que enfiando as mãos em seus intestinos mais repelentes, passou a escrever.
Em Duas Histórias, ambos os contos são ambientados nas ilhas da Malásia, cenário de algumas das mais belas tramas de Conrad. “Karain: uma memória”, o primeiro deles, narra a história da obsessão de um chefe guerreiro nativo, em conflito entre o dever de cumprir a promessa de partilhar com um amigo uma operação de vingança e morte, e seu amor à mulher que seria objeto dessa vingança.
O segundo, “Um posto avançado no progresso”, mostra as desventuras de dois brancos coloniais enviados a uma ilha isolada nos Mares do Sul, a fim de conduzir por lá os interesses de sua empresa, supostamente missionária da civilização e do progresso. O percurso dos dois personagens numa realidade que eles desconhecem e, inocentemente, menosprezam é narrada com o profundo espírito humanista que sempre acompanha os textos de Conrad.

   

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