Em Outono Da Idade Média Ou Primavera Dos Novos Tempos?, o historiador francês Philippe Wolff sustenta a tese de que o progresso e a evolução material da humanidade não teriam sido possíveis sem uma profunda transformação intelectual. No entanto, esta mudança provocada pelo pelo pensamento humano não se faz sem conflitos interiores, sem interrogações e sem dúvidas.
Até data recente — e ainda é essa a visão de vários historiadores —, os séculos XIV e XV tiveram uma reputação lastimável. Para qualificá-los, as expressões atropelam-se: estagnação, recessão, crises.
Por muito tempo, eu mesmo compartilhei dessa opinião. É verdade que, ao trabalhar sobre uma das regiões que mais sofreram as agruras do tempo, sem estar, longe disso, na vanguarda do progresso — ou seja. a região de Toulouse —, eu falava, em 1952, de “uma economia estagnante com acidentes bruscos”.
Não se trata aqui de negar os motivos de tal atitude, eles apenas são certos demais; irei me esforçar para precisar os dados. Esse será o objeto da primeira parte.
O grande historiador Jan Huizinga tinha encontrado, para designar essa época, uma belíssima fórmula, já muito mais elaborada: a de outono da Idade Média.
O outono, certamente, é a aproximação do inverno; mas também são tão belos os frutos que nele se colhem! Como a tantos outros historiadores, a leitura desse belo livro não podia deixar de me influenciar profundamente.
À medida que avançavam minhas pesquisas e meus trabalhos, eu descobria quanto progresso e novidades — algumas destinadas a se perpetuarem até o século XIX — trouxe essa época tão depreciada.
Tanto que cheguei a me perguntar se esse outono não era de fato uma primavera — com frequência ainda atravessada pelas escarchas do inverno, mas rica de promessas. Logo, em certa medida, é meu itinerário intelectual que convido meus leitores a seguirem comigo. Definir essas promessas será, em todo caso, a tarefa a que me dedicarei na segunda parte.
E por fim, será necessário chegar a um balanço. Que esse é um problema árduo, complexo, talvez sem solução, eu não teria nenhuma dificuldade em assinalar em minha conclusão.
Mas, antes de tudo, como qualquer arquiteto que se preze, antes de construir meu edifício, quero firmar as bases.

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