O detetive da história é um pacato e algo rotineiro professor aposentado, brasileiro, que atualmente vive em Berlim, e que recebe o pedido de um ex-policial, também aposentado, para que o ajude a elucidar o desaparecimento de um jornalista que deixou uma mensagem falando deste “legado” da Maria Capitolina, aliás, Capitu.
O professor – cuja vida a partir daí vai passar por trepidações inusitadas – se chama Edmundo Wolf.
O parentesco dele com meu sobrenome materno é proposital, bem como seu primeiro nome, cujos sentidos se elucidarão ao longo da narrativa.
Mas o romance e o personagem nada têm de autobiográficos, a não ser por um detalhe da natureza de um negativo fotográfico (uma expressão e um artefato em vias de desaparecimento neste século XXI densamente digitalizado).
O referido professor (ele, não eu) se exilara em Berlim Ocidental durante boa parte da ditadura civil-militar decorrente do golpe de 1964.
Agora (no presente da narração e da narrativa, situada livremente um pouco antes do novo golpe, desta vez parlamentar, midiático, jurídico e policial), ele vive novamente na capital alemã, buscando, como o narrador Bentinho de Dom Casmurro, reconstruir os símbolos do seu passado de jovem no presente do envelhecimento.
Tal não é a minha história. Acontece que em determinado momento (que já narrei em outras ocasiões) daquela ditadura, me vi na circunstância de ter de optar entre ficar no Brasil ou sair dele. Decidi ficar. Mas sempre me perguntei o que seria de minha vida se eu tivesse feito a outra opção, a de seguir o caminho do exílio.
De certo modo, a criação deste personagem é uma resposta inteiramente hipotética e fantasiosa a esta pergunta que, se não é angustiante, não deixa de ser interessante. O que, se não é uma solução, pelo menos é uma rima.
Em seu primeiro romance policial, o poeta e crítico literário Flávio Aguiar nos oferece uma trama complexa, ambientada entre Berlim, São Paulo e Porto Alegre e apimentada por escândalos políticos, suspense, digreções sobre alta literatura e uma inesperada grande paixão.
Com personagens cativantes – ora cômicos, ora desprezíveis, ora adoráveis –, o mistério vai aos poucos se revelando ao leitor, quase como num convite para revisitarmos o pensamento dessa mulher em milhares que sempre será Capitu.

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