Julho de 1841. A corte amanheceu em festa. Hora de acompanhar a cerimônia de sagração e coroação de D. Pedro II, que assim tornava-se um ícone dileto do Estado. Junto com o cortejo imperial desfilam símbolos desse teatro da política: insígnias, emblemas, palácios e a própria etiqueta. Em O Império Em Procissão, Lilia Moritz Schwarcz convida o leitor tomar parte nesse cortejo de sagração do monarca, tal qual espectadores privilegiados.

Não é de hoje que se procura pela racionalidade do poder político: a forma como o Estado se organiza, as leis que implementa, as posturas que adota. Mais difícil é pensar — nesses tempos tão modernos — de que maneira uma série de rituais, símbolos e costumes constitui o poder e faz parte de sua realização de modo tão eficiente quanto as medidas mais diretas e, por definição, racionais em sua execução. Na verdade, trata-se de pensar na dimensão simbólica do poder político, em como o Estado se utiliza de aparatos teatrais para representar e encenar o poder, que efetivamente exerce.
Se não há governo que deixe de usar esse tipo de recurso, pode-se dizer que é somente na monarquia que rituais e símbolos ganham um lugar oficial, fazendo parte do próprio corpo da lei. É nesse regime que a etiqueta adquire uma posição central, que a festa se realiza como uma extensão do sistema, que as insígnias representam a sobrevivência e a vigência do modelo e que o rei se transforma em ícone maior, símbolo dileto do Estado. Entender a sociedade de corte significa, portanto, adentrar essa lógica própria da realeza, de uma vida que gira em torno do rei, e de um tipo de expediente que pressupõe a exposição e afirmação constantes das diferenças hierárquicas. Tal qual um argumento cênico, o ritual e a simbologia transformam-se em modelo teatral, parte essencial e integral do Estado.
A idéia aqui é, portanto, privilegiar essa perspectiva: o terreno mágico, sagrado e simbólico da realeza brasileira que, ao mesmo tempo, atualizou a tradição européia (espelhada num modelo Habsburgo, Bourbon e Bragança) e a fez dialogar com as representações locais, anteriores a seu estabelecimento. É por isso mesmo que as procissões eram acompanhadas por gentes, cores, cheiros e sons diferentes. É por isso, também, que o manto do soberano representará o céu do Brasil e a “murça” do imperador será feita de penas de papo de tucano: uma homenagem aos caciques desta terra tropical.

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