O título deste livro — Violência e Cultura no Brasil — poderia levar o leitor a imaginar que estou procurando explicar a violência em nossa sociedade a partir de sua cultura. Trata-se, na verdade, de dois temas distintos que correspondem a meus interesses teóricos e às atividades de pesquisa que desenvolvo no Mestrado em Antropologia, Política e Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com o apoio desta Universidade, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos).
O tema da violência é tratado nos dois capítulos iniciais, sendo uma decorrência natural de meu interesse pelas mudanças associadas ao processo de urbanização no Brasil, assunto ao qual venho me dedicando há vários anos e que se consubstanciou em minha tese de doutorado publicada em 1980 pela Editora Vozes, sob o título de Urbanização e Mudança Social no Brasil. Nestes capítulos iniciais, discuto a existência de uma violência especificamente urbana e analiso o significado do tão propalado aumento da violência em nossas grandes cidades, procurando mostrar a utilização ideológica e a dramatização que este assunto vem experimentando recentemente. O primeiro capítulo analisa a violência como mecanismo de dominação e como estratégia de sobrevivência, e o segundo indaga quem são as vítimas da violência no Brasil.
A segunda parte do livro constitui-se em uma reflexão sobre a cultura no Brasil, tema que passei a estudar de forma sistemática mais recentemente. O último capítulo de Urbanização e Mudança Social no Brasil, “Classe e Cultura em Cidades Brasileiras”, já significava uma ponte na direção desta temática, na medida em que procurava problematizar a maneira pela qual a dominação de classe é refletida na cultura e por ela mediada em cidades brasileiras.
“A Malandragem na Música Popular Brasileira”, o terceiro capítulo do presente livro, é uma tentativa de resgatar um tema recorrente em nossa cultura. Na música popular brasileira, a gênese da malandragem está associada à rejeição do trabalho e corresponde à formação de uma sociedade urbano-industrial. Procuro mostrar a evolução deste tema desde a década de vinte até nossos dias, salientando como a malandragem, apesar do reduzido espaço social que lhe sobrou, permanece enquanto símbolo de identidade nacional.
A questão da transformação de manifestações culturais, inicialmente restritas a certos grupos e classes sociais, em símbolos nacionais, é aprofundada no quarto capítulo que examina um aspecto fundamental para a compreensão de nossa sociedade: a dinâmica da produção e do consumo da cultura no Brasil. Detenho-me, em especial, no fenômeno da apropriação de expressões culturais específicas a certos grupos sociais por parte do resto da sociedade e sua recodificação e introdução num novo circuito semântico. Neste sentido, proponho ser justamente no processo de reelaboração de manifestações culturais e sua subsequente transformação em símbolos de identidade nacional que reside uma das peculiaridades da dinâmica cultural brasileira.
O último capítulo examina a cultura brasileira e a identidade nacional na década de oitenta, retomando algumas das antigas questões sobre o tema e analisando a maneira pela qual são reatualizadas no presente. Temas como a especificidade e o grau de autenticidade do que é considerado cultura brasileira, a contribuição que diferentes classes sociais prestariam à formação do que é chamado de identidade nacional, os produtores de cultura tidos como válidos, a relação que existe entre as classes sociais no processo de produção cultural e, em última análise, o que é considerado cultura brasileira também são enfatizados.

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