Composição é mais do que música? Mais do que simplesmente aquilo que se ouve? Ou bem ao contrário, a música é quem engloba tudo, inclusive as vicissitudes de sua criação? Música e Composição vão além daquilo que soa, e vibram na direção do que se pensa, do que se imagina e do que se fala. Envolvem, portanto, um mais-ouvir e até mesmo um mais-gozar, como diria Lacan. Daí nosso compromisso com o imaginário. Nossa responsabilidade com o discurso.
As crônicas e ensaios aqui apresentados surgiram dessa consciência, e especialmente da teimosia na combinação de traços e temas aparentemente opostos – leveza e incursão analítica, popular e erudito, formalismo e referencialismo, o cotidiano e o susto. Escritos a cada semana, celebrando uma abertura de diálogo com um novo público, encontram agora uma moldura em livro, algo que muito me alegra.
Em foco, de forma especial, algumas canções brasileiras, buscando identificar caminhos e processos de construção composicional – mostrando que o terreno é fértil, e menos visitado do que deveria ser, especialmente agora que a complexidade das hierarquias não mais precisa das fronteiras de ontem, e nem mesmo de fixar receitas de complexidade.
Nesse novo tempo de paradigma, a criação musical se espalha pelo mundo, e a nossa compreensão do fenômeno apenas engatinha. Longe de ser simples ‘carnaval conciliador’, esse é o novo patamar do desafio crítico, para uma visão transformadora do mundo.
Não sei o que é música popular – não vejo muito sentido em tal denominação –, mas preciso da atenção dos muitos que usam a nomenclatura, justamente para tecer esses caminhos, para identificar processos mais amplos, para brincar com os limites entre estratégias de análise da canção e da cultura.
Pensando em Jobim chego no conceito de ‘tonalidade suspensa’. Em Caymmi, esbarro, por incrível que pareça, na teoria dos conjuntos como medida de sua organicidade. Em Chico, proximidade e distância estão igualmente aninhadas na sintaxe e na semântica. Noel Rosa remete a um modelo bem nosso de anarquia e criatividade, o gago realiza sua apoteose em plena ária de ópera. Poder e paranoia: toca Raul! Já repararam a proximidade extrema entre o Hino Nacional e a Marsellaise? Quem foi o autor da versão apócrifa de Jingle Bells? Caetano e a arte de flutuação melódica em direção à Terra. Michael Jackson e a tendência à auto-fabricação numa época de declínio da figura do pai simbólico…
Caro leitor: nada de piparotes. Pago-lhe com um acorde de sétima e nona com quinta aumentada na Dominante da Dominante da Dominante e Adeus.

  

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