Esse livro mostra que política e psicanálise não se opõem e erra quem pensa que uma se ocupa do coletivo enquanto a outra cuida do individual. Na verdade tratam do mesmo objeto – a felicidade (gozo ou res publica, o referente é o mesmo)–, mas o abordam de maneira diferente. É dessa diferença que se ocupa o autor, analisando a questão do poder na relação entre analista e analisando e na política.

“Há muito adotei o dito espirituoso dos três ofícios impossíveis, isto é, educar, curar e governar”, escreveu Freud em 1925, no prólogo destinado a elogiar o tratado de pedagogia de um amigo educador. E, 12 anos mais tarde, depois de evocar as “pesadas exigências” às quais o psicanalista deve se submeter no exercício de sua prática, foi levado a reconhecer que “quase temos a impressão de que analisar seja a terceira dessas profissões impossíveis, de cujo pouco sucesso podemos estar seguros. As duas outras, há muito conhecidas, são educar e governar”. Uma análise cuidadosa desta observação, acredito, há de ser suficiente para explicitar o que Freud pensava sobre a política em particular e sobre o poder de modo geral.
Freud nunca se ocupou da política como objeto de reflexão filosófica ou científica, nem fez dela um tema para a psicanálise. Não por omissão, mas por interessar-se por ela antes como prática que como teoria, o que a definição bem-humorada dos ofícios revela suficientemente (optou por três verbos, em vez de três substantivos: governar, educar, analisar). É menos o “ser” que o “fazer” político que chama a sua atenção. E o adjetivo “impossível” com que qualifica o trabalho dos políticos (mas também dos professores, médicos e o próprio, o do psicanalista) não vem aí anunciar-lhes a impotência. Ao contrário, em que pese o contra-senso, “impossível” indica as condições de possibilidade dessas tarefas. Eis a diferença entre se dispor a alcançar um ponto preciso ou aproximar-se dele de modo assintótico, sem esperar chegar mas também sem perdê-lo de vista.

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