Dois enunciados são, amiúde, repetidos em nosso cotidiano: “Freud reduz tudo ao sexual” e “Freud explica”. Eles revelam a maneira pela qual nossa cultura representa para si mesma dois núcleos fundamentais de tematização encontrados na obra de Freud: a sexualidade e a interpretação. O Freud pansexualista se entrecruza com o Freud intérprete.
Essa maneira de assimilar a obra de Freud demonstra a capacidade da transmissão cultural em neutralizar as proezas dos grandes gênios, esses seres não muito normais, transformadores dos sentidos estabilizados, que surgem, vez por outra, para perturbar o sono da verdade oficial.
Figurando agora entre os Grandes Homens que mudaram o rumo da humanidade, o velho e querido Freud de hoje em nada lembra o judeu que foi tantas vezes humilhado e ridicularizado por expor suas teses sobre o inconsciente e o determinismo sexual das neuroses. Mas constar na galeria dos gênios tem seu preço: a banalização e a distorção das ideias.
Assim, a decantação cultural do conceito de interpretação em psicanálise pode ser observada a partir dos contextos nos quais surgem as referências ao “Freud explica”.
Quando, em uma conversa trivial, alguém é atropelado pelo seu próprio dizer e apresenta um esquecimento, um lapso de linguagem ou um ato falho, costuma-se ouvir a clássica sentença: “É… Freud explica!”.
Se aquele que disse mais do que pretendia dizer fica quase sempre embaraçado, e às vezes enrubesce, a reticência daquele que interpelou insinua motivações secretas. Se toda reticência faz o silencio falar, nesse caso ela alude ao sexual.
Embora a ordem sexual não seja nomeada de forma direta no dito reticente, é por seus efeitos que se observa sua pertinência. Aqui, há uma alusão não só à capacidade interpretativa de Freud como também à ligação com o sexual.
Mas se o sentido e o sexual se acham estreitamente vinculados para Freud, é preciso saber o alcance, bem diferente do habitual, que esses dois elementos apresentam para ele.
O lugar construído para Freud na cultura é o de ser o único a possuir um saber capaz de dar conta do que não pode ser dito de uma forma direta. O fantasma de Freud, sua presença mítica, de cunho oracular, paira sobre a nossa cultura, de quem ele é o analista mítico.

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