Os 50 anos do golpe de Estado de 1964 estimularam inúmeros eventos acadêmicos, fomentando revisões e novos campos historiográficos de pesquisa.
Neste caso, o historiográfico não se limita à historiografia de oficio, mas à convergência de pesquisadores de diversas áreas que ajudam a adensar o conhecimento histórico. O livro que ora se apresenta, O Golpe de 1964 e a Ditadura Militar em perspectiva, é um dos exemplos desse encontro de diversas áreas do conhecimento para compreender eventos e processos históricos que estão entre os mais impactantes da vida republicana brasileira. Não seria exagerado dizer que o golpe e o regime que se seguiu foram divisores de água da história brasileira, alterando de maneira profunda estruturas, valores e instituições em vários campos da vida social.
Organizado a partir das intervenções de uma “Jornada Multidisciplinar” que faz jus ao nome, este livro reúne textos de historiadores, cientistas políticos, sociólogos, filósofos, jornalistas e comunicólogos para tentar elucidar os impactos daquela experiência autoritária. Os textos foram agrupados em três grandes áreas – política, comunicação e cultura –, mas dentro delas abarcam um conjunto muito maior de temas, alguns deles pouco explorados pela pesquisa.
Obviamente, também há temas mais canônicos, voltados para a compreensão da vida política, identidade nacional, das instituições em crise, dos movimentos sociais e da imprensa. Além destes, os textos abordam futebol, humor gráfico, vida cotidiana.
No primeiro grupo de textos, o leitor encontrará análises focadas na vida política. O texto que abre o volume, do cientista político Cicero Araujo, propõe um exame crítico sobre a maneira com que amplas parcelas da esquerda, intelectual e militante (ou ambas), veem a “atualidade” da ditadura no contexto democrático brasileiro do início do século XXI, indagando-se sobre a coerência e a pertinência de tais proposições, reveladoras de uma experiência do tempo, na qual a esperança de um futuro democrático parece sucumbir às contradições e aos paroxismos da vida política brasileira. O texto seguinte, de Jefferson Goulart, um dos organizadores do evento que está na origem do livro, retoma um tema muito discutido nas crônicas, mas ainda pouco disseminado entre os estudiosos do período: a relação tensa entre a vocação autoritária e centralista do regime e o sistema federativo brasileiro, que acabou por propiciar um protagonismo dos governantes subnacionais que, não raro, alimentava-se das próprias demandas por democracia da sociedade civil.

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