A pesquisa que gerou a edição desse livro demonstra como é contrastante a ideologia transcrita no texto legal e a prática existente na sociedade.
O que se depreende das conclusões da pesquisa é que o ideal contido na Carta Magna está muito distante da realidade prática e nossas crianças têm sido responsabilizadas por grande parte da violência de que elas próprias têm sido vítimas.
A negligência com que são tratadas é generalizada, não há escolas, embora tenham direito à educação, não há hospitais, embora tenham direito à saúde, não há abrigos, embora tenham direito à convivência familiar e comunitária.
A discriminação é uma forma covarde de afastar a criança do convívio social, inserindo-a desde cedo em um convívio marginalizante e degradante. A exploração é uma constante, especialmente através do uso delas em “trabalhos ilícitos” a que são submetidos pelos marginais como forma de suprir a ausência de oportunidade de trabalhos lícitos que lhes são negados.
A violência e a crueldade têm sua marca maior no extermínio oficial e oficioso de que são vítimas constantes e cujo número cada vez maior deve ser motivo de vergonha de qualquer sociedade civilizada.
A opressão consiste em que, embora se tenha assegurado, hipocritamente apenas no texto legal, a essas crianças todos os direitos fundamentais de qualquer pessoa, não se lhes permite o direito de cobrar o cumprimento do texto legal, pois se estão nas ruas tomando banho nas praças escandalizam a sociedade e logo aparece um agente da repressão para escondê-las em instituições totalitárias. Assim, não as vendo é mais fácil apagar o sentimento de culpa coletiva.
A pena tem funcionado apenas como instrumento de dominação da classe dominante sobre a classe dominada. Isso explica que a população carcerária, como concluiu a pesquisa, seja ‘formada por pessoas de pouca ou nenhuma escolaridade, desempregados, oriundos do interior (nordestinos e camponeses) e que basicamente praticam crimes contra o patrimônio.
O repúdio à institucionalização e à prisão arbitrária tem sido contestado por uma parcela da sociedade que ainda não compreendeu a inutilidade da pena – medida de privação de liberdade que, além de não reduzir a criminalidade, provoca a reincidência, fabrica delinquentes, favorece a organização de criminosos e não corrige nem pune, sem citar o aspecto econômico e os danos que refletem na própria sociedade.

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