Iniciado em 1938 e interrompido pela morte de Freud, Compêndio da psicanálise apresenta a derradeira síntese de suas teorias. Publicado em 1940, traz uma breve exposição do funcionamento do aparelho psíquico humano tal como o autor o concebia ao final de sua longa e profícua vida.
São abordadas as diferentes qualidades (o inconsciente, o pré-consciente e o consciente) e instâncias psíquicas (o eu, o isso,o supereu), os princípios de prazer e de realidade, a dualidade do impulso de vida e do impulso de morte, o funcionamento e o desenvolvimento da sexualidade humana – incluindo o complexo de Édipo –, a inevitável divisão do psiquismo e mecanismos como o recalcamento e a resistência, além da formação de sintomas e das psicopatologias.
Neste esforço final por sistematizar seu pensamento de forma concisa e clara, Freud tece considerações sobre as limitações da psicanálise e demarca os pontos-limite de seu legado a partir dos quais caberia a seus sucessores construir e evoluir.
Na condição de sistematização derradeira da psicanálise por ninguém mais ninguém menos que o criador da mesma, o interesse suscitado pelo Compêndio da psicanálise é incontestavelmente enorme. Mas tal interesse é também multifacetado.
Por um lado, a obra fornece uma súmula sobre o aparelho psíquico humano tal como Freud o via após toda uma vida de estudo: trata de seus elementos básicos, as instâncias psíquicas, a dinâmica do psiquismo, seus principais mecanismos, o funcionamento e o desenvolvimento da sexualidade, o papel dos impulsos, os conflitos inerentes à organização da psique humana etc.
Por outro, explica a psicanálise como tratamento e faz considerações metapsicológicas, discorrendo sobre os obstáculos que lhe são inerentes e seus consequentes limites. Também serve de baliza para o estudo da obra freudiana, por reunir explanações sobre conceitos abordados de forma esparsa em várias obras e possibilitar um acompanhamento evolutivo das teorias do autor.
E, por fim, traz muito claramente as limitações do pensamento de Freud – limites a partir dos quais os pesquisadores que lhe sobrevieram puderam rever a psicanálise e avançar no conhecimento da psique humana.
Se está indelevelmente marcado pelas circunstâncias atribuladas em que foi engendrado, o Compêndio da psicanálise também é o resultado de uma conjuntura preciosa: a de, mais de quarenta anos após A interpretação dos sonhos – a pedra fundamental da psicanálise –, com o benefício de décadas de aprimoramento, clínica e pesquisa, o criador da teoria psicanalítica ter se dedicado a rever e dar uma nova expressão à sua grande invenção.

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