A narradora de A chave de casa está na cama, paralisada, quando ganha de seu avô uma chave muito antiga, da casa onde morou na Turquia, antes de vir ao Brasil. E com essa chave vem uma missão: voltar à cidade turca de Esmirna e encontrar a casa e os parentes que lá ficaram. A narradora tece o relato da viagem com as duas histórias que, se inscrevendo no seu corpo, a levaram à imobilidade: um amor intenso e violento e a doença e morte da mãe. A voz em primeira pessoa se dirige, o tempo inteiro, ora a esse homem ora à mãe, com quem estabelece um diálogo póstumo.
Assim, A chave de casa não é, apenas, uma narrativa. É, sobretudo, escrita. Escrita como sutura, diálogo, luto. Quero dizer: não se trata apenas de contar uma história e sim de escrever como forma de restabelecer um diálogo com quem já se foi. Um diálogo tão íntimo, que se torna confissão.
“Tenho ainda outro sonho, que nunca contei a ninguém. Meu sonho, mãe, é escrever”, confessa a narradora. E esse diálogo póstumo com a mãe, que só a escrita possibilita (afinal, é a escrita que tira a narradora da paralisia), está no fundo tanto do romance quanto da carreira de Tatiana como escritora. “Você não pode partir. Porque não quero, não deixo, porque não é justo… Quero você a meu lado o dia que eu publicar meu primeiro livro”. É esse diálogo que funda a escrita de Tatiana, pois seu romance de estreia propõe uma reflexão sobre a herança.
Neta de judeus turcos, Tatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, onde os pais estavam exilados por conta da ditadura militar, e veio para o Brasil antes de ter completado um ano de idade. Todos os dados biográficos da escritora se confundem com os da narradora. Ademais, a descrição que a narradora faz de si coincide com a fotografia da autora na orelha do livro: “olhos de azeitona, nariz comprido, boca pequena”….

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