Os artigos que, no início de 1997, publiquei no semanário O Independente suscitaram alguma polémica.
Vários colunistas afirmaram que, no fundo, o que eu queria era voltar ao “antigamente”, isto é, ao salazarismo. No Público, Augusto Santos Silva acusou-me de possuir um pensamento demasiado dicotómico, o qual colocaria, de um lado, os exames, a autoridade e a disciplina e, do outro, os pedagogos sonhando com experiências de deconstrução.
Eu desejaria, numa palavra, regressar à “Ordem disciplinar” contra a “Desordem pedagógica”. As minhas malfeitorias não ficavam por aqui. Santos Silva previa eu recusar qualquer debate, uma vez que a minha intenção era crucificar, como “burocratas e imbecis”, aqueles que se me opunham. Criticava-me ainda o facto de ter usado o meu estatuto de universitária em artigos para jornais. Após ter declarado que concordava comigo nalguns pontos, confessava não ter, no entanto, vergonha, mas orgulho em desejar “uma escola onde todos tenham sucesso”. Recusava, por conseguinte, a noção de uma tabela, onde os melhores ficariam à frente dos piores.
A ideia de que todos têm de ter êxito atrai evidentemente aqueles para quem qualquer tipo de desigualdade, mesmo de raiz meritocrática, é anátema. Para estes, não basta a igualdade de oportunidades à partida; querem, além disso, a igualdade de resultados à chegada, o que evidentemente significa a equiparação entre alunos preguiçosos e trabalhadores, entre inteligentes e medíocres, entre ambiciosos e apáticos.
Quem com esta tese não concorde é apelidado de nostálgico do “antigamente”.
No mesmo jornal, dois docentes de Ciências da Educação, S. Stoer e A. M. Magalhães, declaravam que eu não acreditava “numa escola oficial que promova o sucesso de todos os alunos”, terminando por lamentar o facto de eu só ter referido uma vez “os efeitos perniciosos do regime salazarista”. Acusavam-me de eu não confiar “quer na avaliação contínua quer na avaliação formativa” e de as minhas posições estarem a conduzir a “uma derrota antecipada da democratização da escola”. Ao contrário do que eu afirmara, “as principais propostas pedagógicas, organizacionais, institucionais e políticas porventura derivadas das Ciências da Educação ainda não penetraram suficientemente no sistema”. Em vez de influência a mais, os Cientistas da Educação tinham influência a menos.
Outros professores, António Brotas e Diogo Pires Aurélio, comungavam da tese que afirmava reflectirem os meus textos a nostalgia pelo ensino salazarista.

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