O livro que apresentamos é resultado de algumas contribuições ao Seminário Mario Pedrosa e o Brasil – 100 Anos de Arte e Política, organizado pela Fundação Perseu Abramo e pelo Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (CEDEM-UNESP),
por ocasião das comemorações dos 100 anos do nosso maior crítico de arte.
Mario Pedrosa nasceu na virada do século, em 25 de abril de 1900, período caracterizado pelo escritor e revolucionário russo Victor Serge em suas memórias como “a fronteira de dois mundos: o que findava e o que despontava. Destruiu-se a noção estável da matéria; a guerra veio abolir a noção de estabilidade do mundo. A relatividade abria novas concepções desconcertantes – de tempo e de espaço”.
Já tive a oportunidade de afirmar, em outras ocasiões, que a biografia de Pedrosa traz a marca de seu tempo. Principalmente a capacidade de enfrentar desafios, de transpor barreiras aparentemente intransponíveis, de apontar sempre novos caminhos. Visceralmente compromissado com o novo, enfrentou inúmeras adversidades para defender suas idéias, desde os primeiros anos de militância socialista, quando se colocou contra a corrente da poderosa Internacional Comunista dos anos 20 e 30, até seus últimos anos de vida, engajado na luta pelo Partido dos Trabalhadores, em um momento em que este último era apenas um sonho.
A propósito, tive naquele período uma experiência inesquecível com Pedrosa, que me revelou muito de sua argúcia intelectual e de seu destemor. Jovem militante trotskista, engajado na luta contra a ditadura militar, eu fazia parte de uma organização que resistia ao surgimento do PT. Na primeira vez que encontrei Mario Pedrosa, por motivos profissionais, ele perguntou-me se eu já fazia parte do movimento pelo partido, dissertando com simplicidade, mas com muita convicção, sobre a necessidade de um partido que representasse verdadeiramente os operários, os trabalhadores do campo e os excluídos, luta histórica de sua vida. No velho estilo, desfilei meus argumentos contrários, todos permeados por um raciocínio esquemático que, no limite, temia o que poderia vir a ser este novo partido.

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