Renê é um sujeito um tanto bronco, um ‘ferrado” que se refugia no emprego, recepcionista de hotel em Balneário Camboriú no turno da noite. Copi, uma travesti argentina e culta com olhar sensível para a fotografia e mão boa para a escrita.
Na conta dele, uma tentativa de suicídio, relações afetivas malsucedidas e um filho com quem não lhe é permitido falar. Na dela, bem, tudo que está implícito em ser e assumir-se travesti.
Em circunstâncias convencionais essa talvez fosse uma amizade improvável, mas na narrativa de Schroeder, ela não apenas se justifica, como é o aspecto mais contundente da história, porque cada um a sua maneira reconhece no outro o porto seguro que respectivamente lhes falta em função de suas escolhas passadas.
Em meio à solidão desoladora que perpassa a obra do início ao fim, a relação que surge entre Copi e Renê (ou Ratón, como ela o chama) é o cabo de segurança aonde nos agarramos na esperança de chegarmos ilesos ao fim da travessia da leitura, o que, por sua vez, também é improvável.
Ao percebermos o mundo pela perspectiva de Copi (já que Schroeder nos permite ver suas fotos e poesia) nos deparamos com a solidão das coisas e com as felicidades sempre transitórias de “uma vadia que já nasceu melancólica, alguém que gosta da solidão, do silêncio, da reflexão”, como ela própria se define, mas que às vezes precisa desesperadamente da companhia de um amigo que se em boa parte do tempo não está intelectualmente apto a compreendê-la, ao menos está ali para ela.
E estar, às vezes, é o que basta.
Com apenas 111 páginas, Schroeder conseguiu criar uma história que se destaca por personagens brilhantemente construídos mas especialmente por ser uma espécie de pequena réplica em escala do mundo e da própria vida: implacável, quase sempre injusta e não raras vezes assombrosamente solitária e breve. Ainda bem que aos menos nossas fantasia são eletivas.

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