A obra filosófica de Theodor W. Adorno foi sendo escrita em situações que evidenciavam a profunda crise da civilização ocidental. Foi aparecendo como um pequeno fio de luz em meio à escuridão de acontecimentos como perseguições, guerras, exílio, antissemitismo, decadência da cultura. Assim, neste momento em que nossa época se depara novamente com o horror de racionalidades que endossam a violência, o preconceito, a perseguição e as diferentes lógicas totalitárias, nada mais apropriado e urgente do que voltar a examinar a exigente obra do pensador de Frankfurt. Certamente, não se trata de fazer isso para repetir simplesmente suas análises. Trata-se de pensar com sua obra e a partir de sua obra.
É importante destacar, inicialmente, que a leitura de Theodor W. Adorno nos faz entender que o caráter provisório das respostas e propostas da filosofia não se deve, simplesmente, à limitação dos filósofos que as ensaiam. Pensar dessa forma significaria continuar alimentando a convicção de que um dia chegaríamos às respostas definitivas. Existe algo que opera sistematicamente no interior do discurso filosófico e que torna impossível tal sistema de respostas definitivas: o núcleo temporal da verdade. Isto, obviamente, não significa aderir a um historicismo que, de forma mecânica, compreenderia as ideias como reflexos imediatos do tempo histórico e do topos social onde são gestadas.
A filosofia, ao invés disso, é o esforço de articulação conceitual, de modo a tornar perceptíveis os modelos de racionalidade que ordenam a realidade e seu movimento. Ainda que essa mesma realidade seja múltipla e dinâmica e nunca se reduza simplesmente a algum modelo racional, a teoria filosófica, teimosamente, quer tornar visíveis os traços fundamentais da racionalidade que está na base da presente construção social.
Anotações Contemporâneas Em Teoria Crítica é uma tentativa de responder à exigência adorniana de que a filosofia seja o incansável exercício de, sempre de novo, ocupar-se da realidade em suas fraturas e desencontros. Por mais que uma celebração propagandística da realidade festeje ininterruptamente o fim da teoria, o que se pratica aqui é um ato de resistência. A hipocrisia é marca fundamental de nossa época.

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