Um dos fenômenos mais interessantes da cultura ocidental contemporânea é o interesse por narrativas sobre a perda da possibilidade de distinção entre realidade e ilusão. O tema não é em si uma novidade e pode ser observado em clássicos como Édipo Rei e Dom Quixote. Entretanto, o fascínio que exerce sobre o gosto popular atual parece insinuar que algo da nossa época nos torna particularmente sensíveis a ele.
Podemos exemplificar esse interesse a partir de uma rápida passagem por alguns filmes recentes de grande apelo popular.
Não se trata de uma lista que se proponha exaustiva, mas essas poucas obras evidenciam a valorização, por parte de realizadores e do público em geral, de filmes que apresentem variações do tema de protagonistas que, até certo ponto da trama, não conseguem perceber que a realidade em que pensam viver não passa de uma ilusão.
Blade Runner: O Caçador de Androides (1982): A personagem Rachel descobre que suas memórias são falsos implantes e que ela não é uma mulher de verdade, mas uma “replicante” (um produto da engenharia genética do futuro, destinado a substituir os seres humanos em trabalhos escravos). Na versão relançada pelo diretor em 2007, o tema é ainda mais explícito: Deckard, o personagem principal, suspeita ser ele mesmo um replicante.
Coração Satânico [Angel heart] (1987): Um detetive é contratado por um homem misterioso para encontrar um desaparecido.
Termina por descobrir ser ele mesmo o fugitivo que procura, percebendo que vivera desmemoriado atrás de uma falsa identidade, após ter sido protagonista em um ritual de magia negra cujo objetivo era livrá-lo de um pacto com o demônio. Ao final do filme, o cliente que encomendara a busca revela-se como o próprio Lúcifer, pronto para cobrar a dívida.
O Vingador do Futuro [Total Recall] (1990): O protagonista descobre que sua vida é uma ilusão criada a partir de memórias implantadas, que visam a evitar que ele relembre sua verdadeira identidade de agente secreto envolvido na investigação de crimes numa colônia humana em Marte.
O Show de Truman [Truman Show] (1998): O protagonista vive sem o saber em um programa de televisão transmitido 24 horas por dia desde o seu nascimento. Ele termina percebendo que é a única pessoa de verdade (true man) numa cidade cenográfica repleta de atores.

   

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