Relevante para as Ciências Sociais, a questão abordada neste Experiência e Narrativa, de Márcio Ferreira Barbosa, é bastante discutida na contemporaneidade, especialmente na medida em que vertentes do pensamento atual recusam, ou restringem, a validade das narrativas pessoais como acesso à experiência dos sujeitos. Centralmente, o trabalho afirma que a narrativa é induzida pela experiência e que, longe de se constituir em artifício utilizado na representação da realidade, a narrativa “encontra sua possibilidade na própria estrutura da experiência originária” . Em defesa dessa ideia básica, argumentos parciais são desenvolvidos ao longo de três capítulos.
Tomando um artigo de Hayden White (“O valor da narrativa na representação da realidade”) como ilustração excelente das concepções que pretende refutar, o autor discursa, em seu primeiro capítulo, a partir da noção de temporalidade. Ao contrário de White, “que toma história e narrativa como realidades objetivadas”, o trabalho prefere deslocar o binômio “narrativaXrealidade” e privilegiar a discussão das relações entre narrativa e o campo da experiência. Valendo-se principalmente de Merleau-Ponty e Paul Ricoeur, o autor afirma que, na própria experiência, já se instauram significação e temporalidade. Em um segundo capítulo, a reflexão volta-se para uma teoria da linguagem, visando a situar os mecanismos de simbolização como instância mediadora entre a percepção, ligada ao “horizonte da experiência”, e a expressão narrativa do ator social. Em acordo com a perspectiva teórica eleita na etapa precedente, o autor alicerça-se na Fenomenologia da Linguagem, de Merleau-Ponty, em Tempo e Narrativa, de Paul Ricoeur, e no pensamento de Martin Heidegger, cuja concepção de verdade entra em consonância com a noção positiva da relação ontológica experiência-narrativa, ponto nodal do trabalho. Basicamente, ele conclui: a) em sua dimensão discursiva, a narrativa demarca sua própria referência; b) cada ato de narrar abre um determinado campo na experiência, estabelecendo com essa última uma relação dinâmica, mesmo que não a totalize jamais. Por último, o terceiro capítulo focaliza a identidade construída no discurso narrativo em sua relação com um pressuposto sujeito da experiência. Nessa última etapa da análise, o texto chega à visão de uma circularidade entre concepção prévia do sujeito e identidade construída no ato de narrar.

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