Paulo Chacon – O Que É Rock

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Para uma coleção que se dispõe a definir conceitos como capitalismo, stalinismo, comunidade eclesial de base, salários e empregos ou, mesmo, teatro e cinema, falar de rock pode parecer para muitas pessoas o início da fase apelativa da Brasiliense: “Olha aí! Num ti disse? O Caio já tá avacalhando!” diria o mais imediatista dos caretas.
É natural. Estamos num país subdesenvolvido (periférico, me desculpem) cuja cultura popular esteve sempre pressionada por aquilo que o padrão americano e/ou europeu estabelecia. Em função disso nossa teimosa e nacionalista intelectualidade (e isto não tem um tom irônico) sempre procurou, especialmente nos turbulentos anos 60, do CPC ao Arena, resistir a tudo aquilo que tivesse cara ou cheiro de ESSO, Ford ou Kolynos.
Como estudante que só conheceu o mundo nos tempos da repressão vitoriosa e que fez seu debut político cantando Caminhando na Praça da Sé em 1973 na saída da missa do colega uspiano Alexandre Vannuchi Leme, eu olho para aquela década com respeito e inveja, porque a geração que fez Luís Travassos, John Lennon, Augusto Boal, Chico Buarque, Mick Jagger, Che e Cohn-Bendit, fez aquilo que eu gostaria de ter feito e que a repressão e a autocensura não deixaram (e sabe lá Deus qual vem primeiro). Não há espaço aqui para analisar isso, mas a verdade é que eles ridicularizaram o planeta e fizeram todo mundo ver que o rei estava nu. Brilhantes.
E inimitáveis. Sim, porque os tempos mudaram. Pode parecer perda de tempo dizer isso, mas os 80 não são os 60. Ninguém fez ou faz o que a geração de 68 fez. Nem é obrigado. Em 1970, José Augusto Saraiva escreveu que maio de 68 havia passado, mas que ele representava uma onda que seria sucedida por outras que comporiam “um mar sem margens”. Acredito que Saraiva tenha exagerado. 68 viu muito mais longe do que a medíocre ótica humana pode suportar. Para deglutir tudo aquilo que os jovens dos anos 60 denunciavam vai ser necessária mais de uma geração.

   

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