Jacques Lacan – A Família

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A família surge-nos como um grupo natural de indivíduos unidos por uma dupla relação biológica: por um lado a geração, que dá as componentes do grupo; por outro as condições de meio que postula o desenvolvimento dos jovens e que mantêm o grupo, enquanto os adultos geradores asseguram essa função.
O texto que aqui publicamos em português permite situar de certo modo, ainda que incompletamente, as questões da civilização, do ser social dos humanos, da sua dupla situação — tantas vezes desconhecida pelo próprio — de indivíduo e de cidadão. E a família é-nos mostrada na sua função de geradora física e psíquica de seres necessariamente sociais, mas clarificando pela primeira vez os mecanismos pelas quais a exerce.
Lacan diz que não inventa relativamente a Freud. O seu trabalho consiste sobretudo em o saber ler, em o compreender, em o dizer. Consiste em assumir a prática sempre renovada desse entendimento. Mas consiste também em avançar a partir de Freud.
O psicanalista que analisa a sua prática total não pode deixar de nela encontrar aqueles fenômenos pelos quais participa nas relações sociais — incluindo as lutas do poder —, a todos os níveis do seu dia-a-dia.
Se, por exemplo, é lugar comum dizer-se quão importante é o papel do dinheiro na atividade da psicanálise, não pode o analista consequente deixar de analisar o lugar simbólico desse agente eminentemente social no seu próprio jogo de relações. Ser psicanalista não é uma agência para aflitos.
É uma função pela qual se participa do social e por isso do poder e por isso do seu uso e abuso. Função a partir da qual se pode teorizar.
O texto A Família tem também o mérito de abrir uma quantidade de questões prementes para o nosso agora e de polemizar outras. É magistral na explicitação dos seus conceitos de base nomeadamente as noções de família e de cultura, a distinção entre complexo e instinto assim como conceitos mais especificamente psicanalíticos.
É de realçar o modo como ressitua o desenvolvimento individual na espécie humana, tornando a sua compreensão necessária a qualquer entendimento do indivíduo ou da sociedade, ou ainda a impossibilidade que nos cria de voltar a pensar em recalcamento desligado de repressão (física e econômica), em lei de desejo desligada de lei positiva, em indivíduo desligado de cultura, em normalidade desligado de normatividade.

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