Jacques Lacan – Estou Falando Com As Paredes

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Quando Lacan afirma “Estou falando com as paredes” está se referindo às paredes da Capela Sainte-Anne, onde o psicanalista ministrou aos internos do Hospital Sainte Anne as três palestras que compõem esse livro.
Estou falando com as paredes é também um encontro com seu próprio passado, já que Lacan passou parte de sua juventude como interno em psiquiatria nesse hospital.
Jacques-Alain Miller, o herdeiro moral de sua obra, avalia que a intenção do mestre é polêmica:
“…os melhores dentre seus alunos, cativados pela ideia de que a análise constitui o vazio de todo saber anterior, haviam erguido a bandeira do não saber, tomada emprestada de Georges Bataille. Não, diz Lacan, a psicanálise provém de um saber suposto, o do inconsciente.
Chega-se a ele pelo caminho da verdade (o analista se esforça por dizer cruamente o que lhe passa pela cabeça) quando ela desemboca no gozo (o analista interpreta os ditos do analisando em termos de libido).
Em contrapartida, dois outros caminhos barram o acesso ao inconsciente: a ignorância (entregar-se a ela com paixão ainda é consolidar o saber estabelecido) e o poder (a paixão pela potência oblitera o que o ato falho revela). A psicanálise ensina as virtudes da impotência: ela, pelo menos, respeita o real.
Lição de sabedoria para uma época: a nossa, que vê burocracia, de braço dado com a ciência, sonhar mudar o Homem no que ele tem de mais profundo – pela propaganda, pela manipulação direta do cérebro, pela biotecnologia, ou pior, pela social engineering. Antigamente, é claro, a coisa não estava boa, mas amanhã pode ficar pior.”
Nesses textos que abordam conceitos que estavam sendo desenvolvidos no Seminário 19…ou Pior (em tradução), Lacan avisa: “Estou falando sozinho. É precisamente isto que lhes interessa. Cabe a vocês me interpretar.” Trata-se de uma forma de ressaltar as diferentes interpretações que sua fala podia e ainda pode gerar.

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