Marcello Tarì – Um Piano Nas Barricadas

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Para o público português, o “autonomismo” é sobretudo um conjunto de ideias e enunciados, de neologismos e hipóteses vagamente “pós-modernistas” sobre a globalização, o neoliberalismo, o trabalho imaterial e os novos movimentos sociais, sintetizado nas obras de António Negri e Michael Hardt: Império, Multitude e Commonwealth.
Demasiado social-democrata para os anarquistas, demasiado anarquista para os marxistas-leninistas e demasiado ambas as coisas para a Nova Esquerda, esta corrente teórica usufrui de um considerável prestígio académico e sucesso mediático, mas tem tido menos sucesso no que à intervenção política diz respeito.
A relação entre as posições actualmente defendidas pelo colectivo agrupado em torno da revista Multitudes e a experiência da autonomia operária em Itália nos anos Setenta extravasa largamente o âmbito deste livro.
Importa no entanto assinalar que na recepção e divulgação da obra de Toni Negri, a sua participação nessa experiência assume um carácter duplamente problemático, que a apresenta alternada ou combinadamente de duas formas: a autonomia operária enquanto nota de rodapé do seu curriculum, um momento formativo do seu percurso que lhe confere um pedigree radical, mas que não merece mais do que uma ou duas referências à sua passagem pela prisão e exílio na sequência do rapto de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas; a autonomia operária enquanto a pré-história de um “autonomismo” agora amadurecido, capaz de fazer substituir o maximalismo insurrecional e intransigente de outrora por uma respeitabilidade académica e um pragmatismo programático utilizável quer por movimentos sociais “alterglobalizadores” europeus quer por governos soberanos latino-americanos, que vai da valorização do êxodo migrante à proposta de um rendimento universal de cidadania.
Um Piano Nas Barricadas traça deliberadamente uma linha de fuga face a essa arrumação do problema, devolvendo a teoria ao seu lugar específico, de interpretação e descodificação de uma multiplicidade de práticas de conflito, sociabilidade e questionamento que caracterizaram os acontecimentos históricos ocorridos em Itália na década de Setenta.
Não se trata certamente de desprezar ou secundarizar a teoria, mas de a reconduzir a um contexto de crítica da vida quotidiana, experimentação radical de novas formas de vida e empenho estratégico na elaboração de um “comunismo mais forte do que a metrópole”, assente na recusa do trabalho e da sociedade nele fundada, historicamente situado num período de crise e reconversão capitalista, de luta contra e na austeridade, de cooptação das instituições do movimento operário para o espaço da governamentalidade, de dura repressão e áspero confronto militar com os diversos aparatos do Estado.

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