Um conceito de “vanguarda” estética, válido na Europa ou nos Estados Unidos, terá igual validez num país subdesenvolvido como o Brasil?
Esta questão que vem há algum tempo ocupando o centro de minhas preocupações, encontra-se na ordem do dia dos debates sobre arte em nosso País.
É certo que a questão quase nunca é colocada nesses termos. Antes, se dá como aceita a universalidade do conceito de vanguarda e se discute apenas o caráter alienante ou não do vanguardismo, o caráter retrógrado ou não do realismo. Essa é, sem dúvida, uma discussão pertinente mas, a meu juízo, carecerá de objetividade se não se procura definir, primeiro, o que devemos entender por “vanguarda” no contexto da realidade brasileira.
É evidente que colocar o problema desse modo é já questionar a universalidade do conceito de “vanguarda”, coisa que não interessa àqueles para quem arte de vanguarda é apenas a que leva a consequências extremas as pesquisas formais ou irrarionalistas. Nosso ponto de vista é outro.
Cumpre, ainda, assinalar que a divulgação, feita no Brasil, das obras e ideias dos autores de vanguarda sofreu compreensível deformação, determinada sobretudo pelo esquematismo com que se procurou justificar o concretismo poético. Omitiu-se, sempre, tudo o que, em Joyce e Pound, por exemplo, decorria da particularidade desses autores, da sua ligação com a problemática nacional ou cultural, da época em que viveram e criaram, etc. O objetivo era apresentar o curso da arte como um desenvolvimento linear, fatal e historicamente incondicionado. É como se o processo artístico constituísse uma história à parte, desligada da história geral dos homens. A partir dessa linha central, os concretistas selecionavam os autores e obras, sendo “válidos” os que dela se aproximavam e destituídos de valor os demais autores. Como toda abstração, esse era um exercício difícil, obrigando a uma seleção dentro da seleção: as obras e os autores eram reduzidos a aspectos estritos, exclusivamente àqueles que interessavam à conceituação de “vanguarda”, ignorando-se a evolução e a transformação da obra no curso do tempo. De fato, se se pretende demonstrar que a poesia caminhou inevitavelmente para os esquemas concretistas, torna-se difícil explicar, por exemplo, que Oswald de Andrade tenha, ele próprio, abandonado o caminho formalista, depois de 1929, para afirmar a necessidade do engajamento político.

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