André Rehbein Sathler – Carne vs. Bits

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A técnica nos amplia. A pintura rupestre que abre o livro apresenta uma figura de traços hominídeos, segurando uma lança, tanto avantajada em tamanho em relação ao seu portador, quanto a ele plasmada, pela indistinção com que a pintura retrata a junção entre mão e lança, sujeito e objeto.
Nos primórdios, a técnica estava na natureza. Mas não era natural. Foi criada pelo homem , quando este descobriu que podia usar a natureza para alterar a própria natureza, conformando melhor o mundo às suas necessidades de sobrevivência.
Não se trata simplesmente do uso de artefatos , mas da forma como o homem trabalha, entendido o trabalho como o processo mediante o qual o homem extrai sua subsistência do meio-ambiente.
Como uma extensão do homem, a técnica configura uma determinada forma de ser-no-mundo: mudanças tecnológicas determinam mutações antropológicas. A técnica não é neutra. Trouxe mudanças significativas na vida humana, em todos os seus âmbitos. Postman alega que “as novas tecnologias alteram a estrutura de nossos interesses: as coisas sobre as quais pensamos.
Alteram o caráter de nossos símbolos: as coisas com que pensamos. E alteram a natureza da comunidade: a arena na qual os pensamentos se desenvolvem” . A técnica implica mudanças materiais no meio em que vivemos – do Umwelt produz o Lebenswelt.
Este último é povoado por novos signos e símbolos, não mais adstritos aos elementos disponíveis na natureza. Vivendo e convivendo nesse espaço ampliado, o homem haure novos pensamentos e ascende a níveis diferenciados de sociabilidade . A técnica penetra na intimidade ontológica do homem, transformando-o naquilo que ele tem de mais privado – seu próprio processo de pensamento.
A técnica se tornou o ambiente que nos cerca e nos constitui . Nos primórdios do processo civilizatório, a técnica tinha forte viés teleológico – um meio aplicado com o fim de dominar a natureza hostil. Com o tempo, ao criar um ambiente permeado de artefatos – um mundo com determinadas características artificiais – a técnica se tornou o ambiente do homem, aquilo que o rodeia e o constitui.
Com isso, parafraseando Nietzsche, o homem supostamente descansaria de sua angústia existencial pois passaria a poder compreender perfeitamente um universo criado por ele mesmo.

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