Alguma vez um lutador social latino-americano afirmou que para se compreender o século XX era preciso analisar com atenção a Revolução Russa, a Revolução Mexicana e a Revolução Libertária na Espanha.
Com efeito estes três processos oferecem muitas chaves para desentranhar o trágico suceder das classes e setores oprimidos e explorados.
Além disso é preciso esclarecer o papel que, em cada uma dessas lutas, cumpriram os distintos protagonistas.
Da Revolução Russa se ofereceram diversos testemunhos, os bolcheviques se ocuparam e se ocupam de contar uma história oficial que regateia dados fundamentais, por exemplo os antecedentes dos primeiros soviets ou conselhos operários e populares de 1905.
Lênin, Trotsky e Stalin, que tomam o poder na Rússia a partir de outubro de 1917, aparecem como os caudilhos do proletariado, quando na realidade foram quem forjaram os mecanismos de um sinistro capitalismo de Estado que oprimiu, explorou milhões de pessoas.
As indicações de Mikhail Bakunin a Karl Marx, sobre a militarização da sociedade que implicaria na sobrevivência da maquinaria estatal após uma revolução socialista, se cumpriram pontualmente. O aniquilamento dos soviets do Báltico (Krondstadt, 1921) e da guerrilha makhnovista, demonstraram a irracional megalomania que inspirou desde o início aos burocratas bolcheviques.
Anos depois, na Espanha, perseguiram àqueles que impulsionavam a autogestão de campos, fábricas e oficinas, assassinaram lutadores sociais como Camillo Berneri (Maio, 1937), preferiram o triunfo do fascismo à instauração de uma sociedade comunista libertária, com federalismo, justiça social e liberdade.
Entre outros, Piotr Kropotkin e Emma Goldman assinalaram antecipadamente o horror de centralizar o poder, de não eliminar os mecanismos da burocracia.
Ironia do destino, quando o então máximo líder da URSS, Mijail Gorbachov, lançou a Glasnost e a Perestroika, o fez de um edifício localizado na Avenida Kropotkin; o dirigente do PCUS reconhecia, de certa forma, as críticas manifestadas pelo lutador anarquista mais de sessenta anos antes.
Vivemos em um mundo cruel, em que o capitalismo não para de aniquilar vidas, de aperfeiçoar mecanismos de exploração e barbárie, em muitos casos como China, na mão de partidos que se autodenominam comunistas.
A verdadeira história é escrita pelos povos, com seu sacrifício, suas dores e sua coragem.
Estas páginas nos falam de uma porção da história que pretenderam apagar, nosso desafio é recuperá-la do esquecimento, porque as injustiças de ontem persistem e o caminho a seguir requer de memória e reconhecimento para com aquelas mulheres e homens que fizeram da solidariedade uma bandeira digna e luminosa.
Bandeira que empunhamos com coragem e alegria na luta pela emancipação integral dos indivíduos e dos povos. Por uma sociedade sem exploradores nem explorados, sem opressores nem oprimidos.

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