O tema central de A modernização seletiva é a discussão dos pressupostos daquilo que considero a interpretação dominante dos brasileiros sobre si mesmos, seja na dimensão da reflexão metódica, seja nas suas manifestações na nossa prática social. Essa autointerpretação será denominada, para nossos propósitos, de nossa “sociologia da inautenticidade”, na qual a ideia de um Brasil modernizado “para inglês ver”, uma modernização superficial, epidérmica e “de fachada” ganha corpo. A concepção de uma modernização autêntica articula-se de acordo com vários temas que se relacionam como uma “síndrome”, ou como uma problemática de questões que se pressupõem e se relacionam entre si de forma íntima e quase necessária.
Como veremos em A modernização seletiva, a sociologia da inautenticidade articula, como seus temas invariantes e centrais, os conceitos subsequentes de herança ibérica, personalismo e patrimonialismo. Esses conceitos formam um sistema inter-relacionado com poderosíssima influência sobre o nosso pensamento social, vale dizer, sobre nossa reflexão sobre nós mesmos, assim como sobre nossa vida prática e institucional.
A concepção que nos guiará aqui não corresponde à noção do senso comum segundo a qual ideias são entidades externas às práticas sociais. Segundo essa concepção, seria constitutiva da nossa atitude natural1 perante o mundo, a noção de que ideias existem independentemente das coisas lá fora, como se estas se referissem meramente ao mundo material fora de nós sem, no entanto, influenciá-lo ou participar ativamente para o fato de o mundo material externo, especialmente o social construído e compartilhado pelos homens, ser precisamente este que existe e não qualquer outro que poderia ter existido em seu lugar. Ao contrário, A modernização seletiva parte do pressuposto de que existe uma íntima imbricação entre ideias e práticas e instituições sociais, de tal modo que estas não podem ser concebidas sem a ação daquelas.
Uma segunda ilusão objetiva de nossa atitude natural no senso comum e nossa percepção de que valores são criações subjetivas, estando, nesse sentido, à disposição da faculdade de escolha dos agentes. Li claro que, quando pensamos duas vezes, percebemos que valores são criações intersubjetivas e, dessa maneira, impõem-se como uma realidade objetiva a cada um de nós. Mas pouco refletimos no senso comum. A imensa maioria de nossas ações nascem do hábito e de estímulos à ação localizados em algum ponto liminar entre consciência e inconsciência. Isso significa que o agir consciente exige esforço, um esforço metódico de esclarecimento pelas ideias e dos móveis que nos guiam. Liberdade de escolha e conduta racional da vida só existe, em sentido rigoroso, no último caso.

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