“Escrevi alguns ensaios breves, mas não coisa muito séria. Talvez lhe fale deles mais tarde, se me decidir a reconhecê-los. Você pode ter acesso a seus títulos: A negação, Inibição e sintoma e Algumas consequências da diferença sexual anatômica” – diz Freud a Abraham, numa carta de 21 de julho de 1925.
Não deixa de ser intrigante o desdém com que Freud fala de algumas de suas pequenas obras-primas, entre as quais as densas cinco páginas de A negação, até hoje fecundas e estimulantes para os estudiosos das mais diversas filiações pós-freudiana
Poderíamos entender essa desqualificação do próprio trabalho como expressão de um estado de ânimo depressivo, de um doente (o câncer eclodira em 1923) que escreve para outro doente (Abraham já estava gravemente atingido pela doença pulmonar que o levaria à morte cinco meses mais tarde).
Mas o fato é que Freud, ao analisar o conjunto da sua obra, muitos anos depois, continuava a afirmar que, depois de Para além do princípio do prazer (1920) e de O ego e o id (1923), “não dei mais contribuições decisivas à psicanálise, e o que escrevi depois disso poderia ter sido emitido sem maiores prejuízos ou logo seria apresentado por outro”.
Fica claro, portanto, que, a partir de 1923, Freud considera encerrado o trabalho decisivo de construção do edifício teórico da psicanálise; entre 1923 e 1925, publica uma série de pequenos ensaios que chamaríamos de trabalhos de acabamento, que visavam completar formulações anteriores, aplicá-las a questões novas, rever velhos enigmas.
Não por acaso, são desse período os textos: A organização genital infantil (1923); Neurose e psicose, Problema econômico do masoquismo, O declínio do complexo de Édipo (1924); Nota sobre o bloco mágico, Complementação à interpretação dos sonhos, Algumas consequências psíquicas da diferença sexual anatômica e A negação (1925).
O não reconhecimento inicial, por parte de Freud, da paternidade dos três trabalhos citados na carta a Abraham parece dever-se não tanto ao desconhecimento da sua importância, quanto ao impacto da descoberta de novos impasses e obstáculos teóricos a suplantar.

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