Gilberto Freyre – Sobrados E Mucambos

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Sobrados e mucambos tem uma trajetória diversa de Casagrande & senzala. Realmente, o texto mitíco-emblemático e, por isso mesmo, tão citado e pouco lido de Gilberto Freyre, foi um livro único.
Desde o momento de sua publicação, em 1933, sua forma, salvo os riquissimos prefácios e as reveladoras modificações do autor, permaneceu a mesma.
Já Sobrados e mucambos tem uma outra história. É uma continuação do primeiro tomo do que seria uma tetralogia, complementado que foi por Ordem e progresso (publicado em 1959), mas é uma narrativa autônoma, singularizada, ademais, por dois nascimentos.
O primeiro ocorre em 1939, o segundo em 1951, com os familiares “acréscimos substanciais” e cinco novos capítulos, transformadores a obra original. É, como admite o autor, “um trabalho de tal modo renovado que, sob alguns aspectos, é trabalho novo”.
Não obstante as sequelas desse duplo parto, Sobrados e mucambos mantém com Casa-grande & senzala um óbvio laço de continuidade temática e metodológica. Dir-se-ia, porém, refinando mais um pouco o paralelismo, que Casa-grande & senzala é um texto de tese, muito mais fechado em termos apresentação dos assuntos e de argumentação do que Sobrados e mucambos, cuja índole exprime maiores preocupações com uma etnografia do cotidiano em seu dinamismo e suas transformações.
De fato, parece-me que o primeiro livro tem três alvos explícitos. Primeiro, romper com o paradigma racista, corrente nas interpretações e, pior que isso, na ideologia nacional, para apresentar uma leitura do Brasil fundada no conceito de “cultura” que, uma vez adotado, modifica tudo, pois sem cultura não há natureza e, portanto, determinações biológicas, climáticas ou geográficas.
Depois, abrir-se para temas tabus como as intimidades sexuais entre senhores e escravos, cuja consequência colocava o nosso racismo de ponta-cabeça, carnavalizando-o, quando revelava a mestiçagem de modo positivo e, mais que isso, como um método de colonização.
Como a maior e talvez melhor contribuição do português para o Brasil e para um Brasil-em-relação com outros sistemas, naquilo que para Gilberto Freyre seria, como ele dizia com orgulho, “primeira grande civilização moderna nos trópicos: a brasileira”.

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