A narrativa inicial retoma o velho tema do duplo, que moveu tantas vezes a pena sempre feliz de Stevenson. Na Inglaterra seu nome é fetch ou, de modo mais livresco, wraith of the living; na Alemanha, Doppelgänger. Suspeito que um de seus primeiros apelidos tenha sido o de alter ego. Esta aparição espectral terá procedido dos espelhos de metal ou de água, ou simplesmente da memória, que faz de cada um deles um espectador e um ator. Meu dever era conseguir que os interlocutores fossem suficientemente diferentes para serem dois e suficientemente parecidos para serem um. Valerá a pena declarar que concebi a história às margens do rio Charles, em New England, cujo curso frio me lembrou o distante curso do Ródano?
O tema do amor é muito comum em meus versos; não assim em minha prosa, que não tem outro exemplo senão “Ulrica”. Os leitores vão observar sua afinidade formal com “O outro”.
“O Congresso” é talvez a mais ambiciosa das fábulas deste livro; seu tema é uma empresa tão vasta que se confunde afinal com o cosmos e com a soma dos dias. O início opaco quer imitar o das ficções de Kafka; o fim quer se elevar, sem dúvida inutilmente, aos êxtases de Chesterton ou de John Bunyan. Nunca mereci semelhante revelação, mas procurei sonhá-la. Em seu percurso entremeei, conforme meu hábito, traços autobiográficos.
O destino que, como se sabe, é inescrutável, não me deixou em paz até que perpetrei um conto póstumo de Lovecraft, escritor que sempre julguei um parodista involuntário de Poe. Acabei por ceder; o fruto lamentável chama-se “There are more things”.
“A seita dos trinta” resgata, sem o menor apoio documental, a história de uma heresia possível.
“A noite dos dons” é talvez a narrativa mais inocente, mais violenta e mais exaltada que oferece este volume.
“A biblioteca de Babel” imagina um número infinito de livros; “Undr” e “O espelho e a máscara”, literaturas seculares que constam de uma só palavra.
“Utopia de um homem que está cansado” é, a meu ver, a peça mais honesta e melancólica da série.
Sempre me surpreendeu a obsessão ética dos americanos do Norte; “O suborno” quer refletir esse traço.
Em que pese a John Felton, a Charlotte Corday, à conhecida opinião de Rivera Indarte (“É ação santa matar Rosas”) e ao Hino Nacional uruguaio “(“Se tiranos, de Bruto o punhal”), não aprovo o assassinato político. Seja como for, os leitores do solitário crime de Arredondo vão desejar saber o fim. Luis Melián Lafinur pediu sua absolvição, mas os juízes Carlos Fein e Cristóbal Salvañac condenaram-no a um mês de reclusão celular e a cinco anos de prisão. Umas das ruas de Montevidéu tem agora o nome dele.
Dois objetos adversos ou inconcebíveis são a matéria dos últimos contos. “O disco” é o círculo euclidiano, que admite somente uma face; O livro de areia, um volume de folhas incalculáveis.

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