Gilberto Freyre – Assombrações Do Recife Velho

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Os mistérios que se prendem à história do Recife são muitos: sem eles o passado recifense tomaria o frio aspecto de uma história natural. E pobre da cidade ou do homem cuja história seja só história natural.
Ignoro se é tradição de outra cidade brasileira ter aparecido em alguma de suas ruas ou em algum de seus arredores o próprio diabo: o diabo da magia européia e não simplesmente Exu. Pois no Recife, duas simples mulheres, uma madrugada, na campina da Casa-Forte, ficaram assombradas com a figura estranha que lhes teria aparecido de repente; e que, segundo a tradição, foi não a cabra cabriola — que esta não gosta de velhas mas só de meninos — nem mesmo Exu, diabo só dos negros, e sim o próprio diabo dos brancos com toda a sua vermelhidão e toda a sua inhaca terrível de enxofre e de breu. Contou-me a história Josefina Minha-Fé, moradora dos arredores de Casa-Forte, salientando: “Mas isso foi no tempo antigo.” Talvez ainda no século XVII: “no tempo dos framengo”.
Estava o Recife ainda quente da presença de herege ruivo e vermelho nas suas ruas e nas suas casas. A invasão flamenga trouxera à capital de Pernambuco muito calvinista e muito judeu, dos quais a gente mais devota da Virgem e mais amiga dos santos não podia deixar de prudentemente afastar-se, benzendo-se, com medo de que os intrusos — mesmo os ricos — tivessem, como o próprio demônio, pés de pato ou de cabra; e como o maldito, fedessem a enxofre. Perseguida por agentes da Inquisição, diz-se que uma israelita de fortuna, Branca Dias, deitou a muita prata que tinha em casa em águas de Apipucos, desde então, segundo entendidos no assunto, mal-assombradas. Como malassombradas ficaram terras entre Casa-Forte e o Arraial: todo um sítio onde é tradição ter aparecido durante anos a figura de um guerreiro ruivo trajado de veludo e de ouro, cabelo longo e louro
como de mulher, lança em riste, cavalo a galope. Dizia-se que era o fantasma de um general holandês que caíra morto na batalha de Casa-Forte (1645).

  

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