Clarice Lispector – Todos Os Contos

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“Renunciais ao glamour do mal e recusais a dominação do pecado?”, indaga o padre anglófono aos fiéis na Páscoa. A pergunta contém uma fusão, hoje rara, de glamour e feitiçaria: o glamour era uma qualidade que confundia, mudava de forma, envolvia as coisas com uma aura de mistério. Como escreveu Sir Walter Scott: “é o poder mágico de iludir a visão dos espectadores, de tal forma que a aparência de um objeto fosse totalmente diferente da realidade.”
A lendariamente bela Clarice Lispector, alta e loura, usando os extravagantes óculos escuros e as bijuterias de uma grande dama carioca de meados do século passado, adequava-se à definição moderna de glamour. Trabalhou como jornalista de moda e sabia muito bem encarnar o papel. Mas é no sentido mais antigo da palavra que Clarice Lispector é glamourosa: como uma feiticeira, literalmente encantadora, um nervoso fantasma que assombra todos os ramos das artes brasileiras.
Seu feitiço cresceu exponencialmente após a morte. Nos idos de 1977, teria soado como exagero afirmar que era o escritor mais importante do Brasil moderno. Hoje, quando já não parece exagero nenhum, as questões de prevalência artística são, até certo ponto, irrelevantes. O que importa é o amor magnético que inspira nos seus admiradores. Para eles, Clarice é uma das maiores experiências emocionais de suas vidas. Mas seu glamour é perigoso. “Cuidado com Clarice”, advertiu um amigo a uma das suas leitoras, décadas atrás: “Isso não é literatura. É bruxaria.”
A conexão entre literatura e feitiçaria é parte importante da mitologia de Clarice Lispector. Essa mitologia foi poderosamente impulsada pela internet, a ponto de poder ser hoje qualificada de ramo menor da literatura brasileira. Circulando sem par online, encontra-se uma obra fantasmática, cheia de falsas profundidades, vibrante de paixão. Online, também, Clarice adquiriu um corpo virtual póstumo, na medida em que imagens de atrizes interpretando-a estão constantemente reproduzidas em vez do seu verdadeiro retrato.

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