Eduardo Pellejero – Perder Por Perder E Outras Apostas Intelectuais

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Quiçá, como dizia Foucault, pensar não consola nem torna feliz, mas enquanto risco, conscientemente assumido e continuamente retomado, de expor-se ao desequilíbrio, de entrar em perda (desconhecer-se a si mesmo e desconhecer também o mundo), pensar desafia qualquer lógica de efetividade, de acumulação ou de lucro – e nesse sentido, nos tempos capitais que nos calha viver, pensar é um ato de resistência. Perdedoras (anti)heroicas, a arte e a filosofia não asseguram nada, não podem.
O que as caracteriza é uma promessa (sempre diferida) de felicidade, que não têm intenções ou possibilidades de cumprir. Tomado nesse sentido, o seu singular modo de
jogar pode atravessar indistintamente qualquer forma de experiência. Apenas exige de nós que estejamos permanentemente abertos, de forma irrestrita e total, às mais diversas figuras da desilusão e do desengano (em relação ao que somos e ao que esperamos ser, às nossas certezas sobre a história e às nossas expectativas sobre o futuro, às nossas intuições e ao nosso saber).
As formas espúrias da consciência que o presente livro coloca sobre o pano excedem todo o cálculo, toda a proporção, e implicam uma reconciliação com a (ausência de) razão de ser da arte. Atos de coragem, de lucidez e de beleza sobrepõem-se nas suas páginas, nomes de perdedores célebres e de jogadores lendários. Apostas desrazoáveis, que não esperam nada, que se limitam a afirmar o jogo em que andamos e que, inclusive sob as suas formas mais radicais, mais desesperadas, mais generosas, não conhecem outra forma de compromisso que o da esquecida tradição da reserva crítica – logo, de um pensamento sem imagens, isto é, de um pensamento que não levanta imagens de um mundo por vir, que se limita a interromper, a perturbar, a colocar em questão. A sua leitura promete ao leitor apenas uma vitória imanente (ao custo, claro, de perder o tempo).

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