No ano em que me apaixonei por Machado de Assis, um crítico de Liverpool lançava uma coletânea de ensaios intitulada Por um novo Machado de Assis, prometendo um mundo novo. Tempo depois percebi que não havia novidade nesse livro. Quer dizer, John Gledson descobria, página a página, novos sentidos para a obra machadiana, surpreendendo até mesmo nossa compreensão dos rumos da história. O que não havia ali era uma nova abordagem.
Passadas quatro décadas desde A pirâmide e o trapézio e O vencedor as batatas, a crítica machadiana vem repisando e redizendo muito mais, a partir do mesmo. É claro que essa mesmice metodológica nos legou resultados surpreendentes como o profícuo debate cultural acerca das “ideias fora do lugar”.
A interpretação histórico-sociológica, encabeçada por Roberto Schwarz, tornou-se, com folga de mérito, paradigmática para compreensão da obra machadiana.
Ela trouxe, porém, dois inconvenientes. Primeiramente, ela desmentiu a aspiração de se atribuir uma filosofia genuína aos narradores e, no limite, ao próprio Machado de Assis, já que a ideia de filosofia teria de se reduzir a desconversa ideológica ou a metafísica insossa. Em segundo lugar, ela provocou uma retração das interpretações filosóficas da obra machadiana, cujo refluxo vivenciamos com as recentes contribuições, entre outros, de Maia Neto, Paulo Margutti, Patrick Pessoa e Victor Cei. Esses esforços culminaram com o reconhecimento, pela Stanford University, da importância da ficção machadiana para a filosofia da América Latina.
A interpretação sociológica leva apenas parte da culpa. Há uma questão interna à filosofia de distinguir-se do discurso ficcional. Apesar do esforço diferenciador, pode-se dizer que a filosofia é uma categoria literária considerando-se que se manifesta através da fala e da escrita. Não é possível estabelecer uma diferença essencial quanto à forma ou ao conteúdo. Enquanto forma de exposição ou apresentação, ambas transmitem conhecimento no sentido de transformar o entendimento que temos de nós mesmos e do mundo.
Por isso elas lidam com hipóteses que têm pretensões à verdade. Textos filosóficos podem se tornar objetos de análise literária e textos literários podem ter características primordialmente filosóficas. O Fausto de Goethe e a Fenomenologia do Espírito de Hegel são tentativas de compreender a evolução espiritual do ser.

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