É hora de poesia? A poesia tem vez no mundo atual? Essas são perguntas que se propõem os poetas, que delas fazem a própria matéria de sua criação. O debruçar-se angustiado da poesia sobre si mesma, questionando a sua razão de ser e o seu lugar na sociedade, manifesta-se de forma mais sistemática a partir do Romantismo. E no decorrer do século XX torna-se cada vez mais constante e flagrante.
Quanto mais conscientes e lúcidos os poetas, mais aguda a inquietação sobre o seu ofício. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, que ao longo de sua obra reiteradas vezes se indaga sobre a situação da poesia no contexto contemporâneo. Já em Alguma poesia, seu livro de estréia, publicado em 1930, em poema significativamente intitulado “O sobrevivente”, ele problematiza a questão da possibilidade-impossibilidade da poesia no novo período histórico-cultural demarcado pela Primeira Guerra Mundial: “O último trovador morreu em 1914. / Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.” Em poemas diversos, denuncia a surdez burguesa ao canto do poeta (“Nota social”, Alguma poesia), ouve na sociedade de consumo as trombetas do juízo final da poesia, substituída por “versos” de propaganda (“Brinde no Juízo Final”, Sentimento do mundo), e considera a sua época, de deslumbramento com a tecnologia e suas máquinas exatas, insensível ao poeta, na medida em que este se move no território da dúvida e da ambigüidade: “Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu, / a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.” (“Legado”, Claro enigma)
Drummond defronta-se com uma estrutura econômica e sociopolítica que lhe parece pouco propícia à poesia: sente-se deslocado no sistema capitalista direcionado para o lucro (“O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. / […] toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.” – “Nosso tempo”, A rosa do povo); mostra-se cético quanto à importância da poesia, atividade primordialmente lúdica e gratuita, na sociedade burguesa, regida por valores utilitaristas. Solitário, sofre a nostalgia de primitivas eras, quando a poesia, então cantada e dançada, integrava-se na comunidade e no cosmo:
A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
(“Canto órfico”, Fazendeiro do ar)

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