Bernardo Sorj & Luís Eduardo Guedes – Internet Na F@vela

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Neste estudo, a exclusão digital se refere às conseqüências sociais, econômicas e culturais de uma distribuição desigual quanto ao acesso a computadores e Internet, excluindo-se o acesso à telefonia. Embora o telefone pertença ao mesmo grupo de produtos de IC (Informática e Comunicação) compartilhando, inclusive, da mesma infra-estrutura, quando considerado em uma perspectiva sociológica possui características bastante diferentes. Os telefones são parte da família de produtos “inclusivos para analfabetos” — isto é, produtos que podem ser utilizados por pessoas tecnicamente sem qualquer escolaridade —, enquanto computadores e Internet exigem um mínimo, em termos de nível educacional. Se a futura convergência de tecnologias levar ao uso de telefones celulares para transmissão de leitura de mensagens escritas, teremos possivelmente novas formas de desigualdade dentre os usuários de telefones.
Este artigo focalizará aspectos do acesso individual a computadores e Internet, tema que está relacionado ao uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) como um instrumento de desenvolvimento e crescimento econômico, mas não pode ser com ele confundido. Embora a maior parte da bibliografia sobre exclusão digital, produzida por organizações internacionais, enfatize o potencial das TICs para reduzir a pobreza e a desigualdade, na prática a dinâmica social funciona em sentido inverso: a introdução de novas TICs aumenta a exclusão e a desigualdade social. A universalização do acesso é, antes de tudo, um instrumento para diminuir os danos sociais, do ponto de vista da luta contra a desigualdade. Por quê?
a) Porque a pobreza não é um fenômeno isolado. Ela é definida e percebida, dependendo do nível de desenvolvimento cultural/tecnológico/político de cada sociedade. A introdução de novos produtos (como telefone, eletricidade, geladeira, rádio ou TV), que passam a ser um indicativo de condição de vida “civilizada”, aumenta o patamar dos bens considerados necessários, abaixo do qual uma pessoa ou família é considerada pobre. Como o ciclo de acesso a novos produtos começa com os ricos, para se estender aos pobres após um período mais ou menos longo (e o ciclo nem sempre se completa), a introdução de novos produtos essenciais aumenta a desigualdade.
b) Porque, sendo os ricos os primeiros a usufruir as vantagens do uso e/ou domínio dos novos produtos, eles melhoram suas condições competitivas, enquanto a carência desses produtos aumenta as desvantagens dos grupos excluídos.

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