Pierre Bourdieu – Esboço De Auto-Análise

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Concebido a partir de um curso ministrado no Collège de France, Esboço de auto-análise é o livro mais pessoal do sociólogo Pierre Bourdieu. Escrito em 2001, poucos meses antes de sua morte, o texto mescla a narração de momentos-chave de sua vida a um estudo da posição que ocupou no campo intelectual.
A infância e os ritos de passagem no internato, a vivência familiar numa província pobre do sudoeste da França e a experiência como sociólogo na Argélia compõem alguns dos temas do livro. Mas o cerne da atenção é dedicado aos jogos de força entre as principais escolas de pensamento na França naquele período, com destaque para as figuras de Raymond Aron, Michel Foucault e, sobretudo, Jean-Paul Sartre.
De acordo com Bourdieu, Sartre foi um dos responsáveis pelo estabelecimento de um modelo de atividade intelectual pautado pelo exibicionismo retórico e pela ambição desmedida – e é no embate com esse modelo que o autor reconstrói sua trajetória.
Traduzido pelo sociólogo Sergio Miceli, que também assina a introdução, e ilustrado com fotos tiradas pelo autor em pesquisas de campo na Argélia, Esboço de auto-análise condensa de forma enxuta e elegante o percurso de um dos mais importantes sociólogos do século XX.

Não pretendo me sacrificar ao gênero autobiográfico, sobre o qual já falei um bocado como sendo, ao mesmo tempo, convencional e ilusório. Queria apenas tentar reunir e revelar alguns elementos para uma auto-análise. Não escondo minhas apreensões, que vão muito além do temor habitual de ser mal compreendido. Sobretudo por conta da amplitude de meu percurso no espaço social e da incompatibilidade prática entre os mundos sociais que tal percurso conecta sem de fato reconciliá-los, tenho o sentimento de que não posso garantir – longe tampouco de me sentir seguro de chegar a tanto com os instrumentos da sociologia – que o leitor saberá aplicar o olhar adequado, como eu o enxergo, nas experiências aqui evocadas.
Ao adotar o ponto de vista do analista, obrigo-me a reter (e permito-me fazê-lo) todos os traços pertinentes do ponto de vista da sociologia, isto é, necessários à explicação e à compreensão sociológicas, e tão-somente esses traços. Mas, em vez de buscar produzir assim, como se poderia temer, um efeito de fechamento, ao impor minha interpretação, tenciono desvelar tal experiência, enunciada do modo mais honesto possível, ao confronto crítico, como se fosse qualquer outro objeto.

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