Bernardo Sorj, Malori J. Pompermayer & Odacir Luis Coradini – Camponeses E Agroindústria

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O processo de internacionalização da economia brasileira tem sido um fenômeno profusamente analisado e discutido na última década nas ciências sociais. Grande parte dessas análises, porém, tem-se concentrado em torno do processo de internacionalização no setor urbano-industrial, pouco tendo sido escrito em relação à agricultura. Inclusive, parte do debate em torno da internacionalização do setor agrícola tem enfatizado o fenômeno de compras de terras por estrangeiros, o que, embora se tratando de uni fato relevante, pouco em si tem a ver com a questão da internacionalização do capital na agricultura. As origens dessa defasagem podem ser relacionadas, em primeiro lugar, à identificação do processo produtivo na agricultura em forma restrita à propriedade da terra e, em segundo lugar, à idéia de que a agricultura brasileira ainda se caracterizaria pela dinâmica das formas tradicionais de produção.
Em trabalhos anteriores, procuramos mostrar como, na verdade, o complexo agroindustrial é componente básico do processo de produção de setores crescentes da agricultura brasileira, e que, portanto, o ciclo produtivo agrícola passa pela indústria de transformação de insumos e de máquinas agrícolas, assim como pela indústria de processamento. O processo de internacionalização do capital no setor agrícola significa, fundamentalmente, a interiorização dos processos produtivos desenvolvidos nos países capitalistas avançados, veiculados pelas grandes empresas multinacionais ligadas ao setor agroindustrial. Esse processo independe do controle direto da terra pelas multinacionais ou pelo capital agroindustrial em geral.
Na verdade, parte considerável do pensamento crítico brasileiro, no que se refere aos estudos rurais, concentrou-se na década passada na demonstração dos limites da visão dualista que postulava um Brasil tradicional, fundamentalmente agrário, contraposto a um Brasil moderno, urbano-industrial. A crítica procurou mostrar que, na realidade, o chamado setor tradicional estava articulado ao setor moderno, servindo ao processo de acumulação de capital, especialmente através de mecanismo de oferta de alimentos a preços baixos, além de ser uma fonte geradora de força de trabalho.
Essas análises, sem dúvida corretas, ficaram porém, de certa forma, dentro do marco da proposta criticada. O setor agrícola tradicional também estava destinado a se integrar, de maneira mais profunda, ao processo capitalista. Se as formas tradicionais de produção foram mobilizadas em certo momento para apoiar o esforço de acumulação, elas mesmas estavam condenadas a serem transformadas, na medida em que o setor agrícola se transformasse num campo de valorização do capital industrial. E esse processo no Brasil se desencadeia claramente a partir da década de 1970.

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