Este ensaio é escrito com a convicção de que o anarquismo, embora não constituindo, talvez, a mais atraente filosofia política, é, por certo, excelente remédio para a epistemologia e para a filosofia da ciência.
A razão não é difícil de apontar.
A História, de modo geral, e a história das revoluções, em particular, é sempre de conteúdo mais rico, mais variada, mais multiforme, mais viva e sutil do que’ o melhor historiador e o melhor metodologista poderiam imaginar. A História está repleta de ‘acidentes e conjunturas e curiosas justaposições de eventos’ e patenteia a nossos olhos a ‘complexidade das mudanças humanas e o caráter imprevisível das conseqüências últimas de qualquer ato ou decisão do homem’. Devemos realmente acreditar que as regras ingênuas e simplistas que os metodologistas adotam como guia são capazes de explicar esse ‘labirinto de interações’? Não é claro que, em se tratando de um processo dessa espécie, só pode ter participação bem sucedida um oportunista brutal que não se prenda a filosofia alguma e que adote a diretriz que a ocasião pareça indicar?
Tal é, sem dúvida, a conclusão a que têm chegado observadores inteligentes e ponderados. ‘Duas importantes conclusões práticas decorrem daí [do caráter do processo histórico]’, escreve Lenine, na continuação da passagem mencionada acima. ‘Em primeiro lugar, a de que, para cumprir sua tarefa, a classe revolucionária [isto é, a classe daqueles que desejam alterar seja uma parte da sociedade, como a ciência, seja a sociedade em seu todo] deve estar em condições de dominar, sem exceção, todas as formas ou aspectos de atividade social [deve compreender e saber aplicar não apenas uma particular metodologia, mas qualquer metodologia e qualquer de suas variações imagináveis]…; e, em segundo lugar, deve estar preparada para saltar de uma à outra, da maneira a mais rápida e mais inesperada.’
‘As condições externas’, escreve Einstein, ‘que os fatos da experiência colocam [diante do cientista] não lhe permitem, ao erigir seu mundo conceptual, que ele se prenda em demasia a um dado sistema epistemológico. Em conseqüência, o cientista aparecerá, aos olhos do epistemologista que se prende a um sistema, como um oportunista inescrupuloso…’ Um meio complexo, onde há elementos surpreendentes e imprevistos, reclama procedimentos complexos e desafia uma análise apoiada em regras que foram estabelecidas de antemão e sem levar em conta as sempre cambiantes condições da História.

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