Este livro mostra as possibilidades e limites de utilização da linguagem teatral por um grupo de jovens que não possuía a visão como referência sensorial básica. Ilustra o processo desenvolvido em oficinas de teatro e reflete sobre o significado da experiência para os participantes. Registra uma prática pedagógica de ensino de arte, onde o autor se propôs a alfabetizar esteticamente adolescentes que viviam em regime de internato, ávidos por expressarem o explosivo momento do despertar da sexualidade.
Estudos e pesquisas vêm mostrando a dificuldade dos professores em lidar com alunos com necessidades educacionais especiais, inseridos, por força da lei, em classe regular. Por outro lado, são praticamente inexistentes trabalhos que apontem para formas efetivamente empregadas pelo professor de arte no desenvolvimento de processos lúdicos, afetivos, sensoriais e estéticos, sobretudo, com alunos cegos ou com deficiência visual.
A cegueira era uma grande incógnita quando iniciamos o trabalho das oficinas de teatro; não imaginávamos como era o mundo daqueles jovens e não tínhamos certeza de que saberiam participar, de modo coletivo, de uma produção artística, especificamente construindo e operacionalizando cenas de teatro.
Diferentes questões vieram à tona no percurso de desenvolvimento deste trabalho. Seria possível um professor sem conhecimento a respeito de cegueira ministrar aulas de teatro para essas pessoas? Essas aulas deveriam ficar apenas no nível dos jogos de liberação e sensibilização (jogos de palavra, ou de percepção tátil e auditiva, por exemplo) ou o trabalho poderia ser encaminhado em direção à linguagem cênica?
Se, antes da experimentação, duvidávamos da própria viabilidade da construção cênica corporal, durante as oficinas o que intrigava era como os participantes conseguiam fazer cenas progressivas em espaços diferentes da sala e decodificar o que tinha sido produzido pelos colegas, se eles mesmos afirmavam que nunca tinham participado de dramatizações e nunca tinham apreciado um espetáculo teatral. Deveríamos acentuar o trabalho gestual ou essa preocupação não seria pertinente? Teria sentido explorar a expressão facial? O trabalho deveria ser encaminhado para a linguagem verbal que eles dominavam ou buscar uma forma de teatro gestual? Não seria mais interessante misturar cegos e videntes nas oficinas?

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