Roberto Calasso – K.

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Todo leitor de A metamorfose, O processo ou O castelo conhece a sensação de absurdo e de extravio que experimentam os anti-heróis de Kafka em meio a tramas e argumentos labirínticos. Em K., Roberto Calasso convida o leitor a examinar essas narrativas, quase linha a linha, em busca dos princípios que ordenam seu conjunto.
K. representa a seqüência do estudo sobre a natureza e o lugar do mito na Antiguidade e na era moderna que Calasso iniciara em As núpcias de Cadmo e Harmonia e Ka. O método é o mesmo. Nos dois primeiros livros, o autor conduzia os leitores pelos meandros desconcertantes de dois grandes corpos mitológicos, transpondo a barreira lingüística do grego e do sânscrito. Agora, aplica-se a um objeto mais próximo e supostamente familiar, mas não menos desconcertante: as narrativas, cartas e diários de Franz Kafka, examinadas, citadas e comparadas com ânimo de detetive.
À primeira vista, a diferença não poderia ser maior: de um lado, a proliferação de divindades, cenários e versões; de outro, um universo urbano de elementos escassos e histórias que parecem não admitir nem progresso nem desenlace. Mas Calasso demonstra que Kafka, como nenhum outro, intuiu a configuração de poderes e potências que governam o destino do indivíduo moderno – e assim criou a mitologia mais perspicaz e cortante dos nossos tempos.

No início, há uma ponte de madeira coberta de neve. Nevoeiro cerrado. K. ergue o olhar “para o que parecia ser o vazio”, in die scheinbare Leere. Ao pé da letra: “para o vazio aparente”. K. sabe que há alguma coisa naquele vazio: o Castelo. Jamais o viu, talvez jamais ponha os pés ali.
Kafka intuiu que só se nomeara um número mínimo de elementos do mundo à volta. Uma afiadíssima navalha de Ockham penetrava a matéria romanesca. Nomear o mínimo e em sua pura literalidade. Por quê? Porque o mundo tornava a ser uma floresta primeva, sobrecarregado de sons desconhecidos e aparições. Tudo tinha potência demais. Por isso era preciso limitar-se ao mais próximo, circunscrever a área do nominável. Então fluiria para ali toda a potência, de outro modo difusa. E naquilo que se nomeia — uma estalagem, um trâmite, um escritório, um quarto — se condensaria uma energia inaudita.

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