Como pode atuar o psicanalista na análise dos significados inconscientes? Serge Leclaire reestuda as teorias de Sigmund Freud trazendo como contribuição à teoria psicanalítica os modelos estruturalistas de universos de signos. Os desejos edipianos e o medo da castração são os dois pontos de referência do mundo psicanalítico. São o modelo da articulação da elaboração da fantasia e a chave que este modo de interrogação – a psicanálise – procura. A relação terapeuta-paciente existe exatamente na busca dessa articulação, de como ela se dá em cada individualidade.

Certo dia um paciente, estendendo-se sobre o divã, relata a seguinte fantasia: um ladrão de comédia, exageradamente mascarado, com luvas pretas e chapéu de abas largas caindo sobre os olhos, quebra a vitrina de uma galeria de pinturas e se apodera de um quadro que representa a própria cena que se está desenrolando: um ladrão, vestido de preto, quebrando a vitrina de uma galeria de pinturas, antes de se precipitar para dentro de um ”carro preto” que arranca à toda, segundo a melhor tradição dos filmes do gênero. Diante desta cena, o narrador, que se imagina num ângulo dela, finge indiferença e, com gesto lento, tira um cigarro de um maço vermelho e branco, da marca Craven “A”.
Aproveitando o silêncio que se estabelece por um momento, antes que o paciente comente sua fantasia, instalemo-nos ao lado da poltrona, dentro do segredo das reflexões do psicanalista. Imediatamente, ele reconhece, sem poder se defender de um ligeiro mal-estar devido a um sentimento de familiaridade, uma fantasia tipicamente ohsessiva. Novamente isso não vem senão confirmar o seu ponto de vista a respeito do diagnóstico desse paciente. Nosso psicanalista se põe a cogitar sobre as variantes dessa fantasia que já pôde ouvir: a interrogação perplexa, divertida ou fascinante, em última instância angustiante, sobre as etiquetas da “Vache qui rit”: elas trazem a representação de uma vaca ostentando como brincos duas caixas, naturalmente com a mesma etiqueta, no interior da qual figura a mesma representação redobrada. . . e assim por diante, até o infinito.

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