O titulo da letra é um livro importante sob múltiplos aspectos.
Primeiro porque versa sobre a teoria do significante em Lacan, de maneira muito precisa. Segundo, porque sua publicação é superoportuna nesse momento do movimento psicanalítico no Brasil.
Embora tupiniquinamente, podemos dizer, mutatis mutandi, que a situação da psicanálise no Brasil corresponde de alguma maneira à vivida em França quando da publicação do livro. A psicanálise tomou vulto, ampliou suas fronteiras quanto à formação de novos analistas e quanto ao volume apreciável de novas publicações e traduções. Esse texto, parece-me, vem propiciar uma ordenação teórica considerável sobre o específico do significante e sua função científica na teoria e clínica da psicanálise. Lacan institui o signo como algoritmo da lingüística e o significante como algoritmo da psicanálise. O significante é episteme no sentido pleno do postulado bachelardiano. Isto é de importância fundante para a psicanálise como ciência, embora ciência da significância e do particular. É nisto que se institui a psicanálise como ciência específica do inconsciente do homem.
Além disso, este livro coloca precisões importantes dirimindo dúvidas quanto à ba”a e a resist€ncia. Há leituras diversas do algoritmo psicanalítico, mas a que aqui os autores propõem me parece ser a correta, de quebra sancionada por Lacan. A resistência não vem do significado e muito menos da significação. Ela é a própria barra. E é por isso que a autonomização do significante descoberta por Lacan na clínica é menos importante que a própria barra. A importância da barra está em que é ela que institui o significante. Daí a apreciação de Lacan: “Posso dizer de certo modo que, se se trata de ler, jamais eu fui tão bem lido”.
Ao apresentar este livro sinto-me em posição muito curiosa.
Estamos publicando um livro sobre o significante em Lacan que o mesmo Lacan apreciou em termos contundentemente positivos.
Lacan elogiou em seus seminários, como fiéis interpretadores de seu pensamento, Maud Mannoni, Serge Leclaire e, é claro, J. A. Miller … Mas estes faziam parte de seus seminários. Os autores de O título da letra, porém, deles não participavam. Por isso, quando Lacan interrompe o Seminário “Encore” para longamente os elogiar, penso que temos um critério apreciável.

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