Muitas divergências teórico-práticas se resolveriam, ou pelo menos se encaminhariam na direção de um discurso menos belicoso e mais consensual, se nos permitíssemos gastar o tempo necessário para escutar o oponente. Julgar, quando o outro diz sua primeira frase, que já sabemos o que vamos ouvir é sempre a melhor maneira de não ouvir nada e o que lamentavelmente costumamos fazer. Em tempos apressados como os de hoje, muitas vezes o verdadeiro debate é substituído pela repetição de slogans científico-publicitários ou, na pior das hipóteses, pela mera desqualificação dos oponentes e pelo ensimesmamento em um discurso viciado. É também disso que trata o livro de Benilton Bezerra Jr., que consegue entrar — e sair — da querela entre psicanálise e neurociências com a tranquilidade e a generosidade dialética fundamentais para o estabelecimento de um diálogo entre abordagens, à primeira vista, divergentes.
A tarefa de Benilton era, desde o princípio, dupla: comentar o Projeto para uma psicologia científica e, ao mesmo tempo, introduzir o leitor no debate contemporâneo entre psicanálise e neurociências, no qual o escrito rejeitado por Freud possui um papel preponderante. Não fossem a visão e o empenho de Wilhelm Fliess, Marie Bonaparte e Anna Freud, que nele viram um documento fundamental sobre os primórdios da psicanálise, o texto escrito por Freud em 1895 provavelmente teria se perdido para sempre. Depois de décadas (desde sua publicação em 1950) relegado pela maior parte dos psicanalistas ao papel de “achado arqueológico” na história da psicanálise, o Projeto retorna à cena nos anos 90 do século XX como um escrito-chave quando se trata de aproximar a biologia à psicologia, participando da tentativa atual de elaborar uma teoria naturalista sobre a vida psíquica.
Benilton mostra como o Projeto se tornou estratégico para a aproximação entre as neurociências e a psicanálise.
Essa aproximação, ela mesma controversa, torna-se ao mesmo tempo inevitável diante das novas técnicas de exame do sistema nervoso. Um exemplo do cuidado de Benilton, ao analisar as diferentes posições em jogo, é a apresentação que faz das várias nuances abrigadas no conceito guarda-chuva do “naturalismo”, frequentemente identificado, de forma errônea, às suas versões positivistas ou reducionistas.

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