Almejamos com este estudo do desenvolvimento e mudança social no Brasil contribuir para o entendimento da transformação em curso na nossa sociedade e economia, estudando-a sob o ângulo dos processos de industrialização e urbanização. Analisa-se aqui, portanto, a constituição de uma sociedade urbano-industrial entre nós, o que vale dizer, tenta-se compreender como se industrializou e urbanizou o Brasil, quais os aspectos mais salientes desses processos e, sobretudo, quais as suas conseqüências sociais.
Desde já deve ser dito, o nosso principal interesse reside na caracterização e interpretação das mudanças econômicas e sociais da sociedade brasileira, como processo global. Esse objetivo será abordado sob a perspectiva do desenvolvimento de um sistema industrial e de uma sociedade urbano-industrial no Brasil. Tal sistema e sociedade implicam integração econômica, política e social. Significam mercado nacional, meios modernos de comunicações e estrutura político-administrativa abrangentes, no seu escopo e na sua atuação, de todas as regiões do país e setores do corpo nacional, intenso intercâmbio social entre as mesmas regiões e setores, educação e cultura de massa, identificação nacional, etc.
Com as expressões “sistema industrial” e “sociedade urbano-industrial” desejamos nos referir a essa estrutura sócio-econômica global, caracterizada por Olson como sociedade de massa, porém com ênfases distintas, no caso de uma e outra expressão. Com a primeira a atenção é concentrada nos aspectos tecnológicos, econômicos e demo gráficos daquela estrutura (industrialismo, meios modernos de comunicação, mercado nacional, urbanização), com a segunda, a de “sociedade urbano-industrial”, nos seus aspectos institucionais, culturais, psicológicos e sociais (burocratização, cultura de massa, estratificação social e orientações da conduta características, etc.).
Tais fenômenos entre nós, é importante lembrar, prendem-se – para usar formulações de Florestan Fernandes – à “formação e (…) integração da sociedade de classes no sistema capitalista de produção econômica” e ao desenvolvimento da “correspondente ordem social competitiva”. Toca-se aqui em problema teórico intrincado que não cabe tratar nos limites que traçamos para esta monografia. Apenas o mencionamos; tratar-se-ia de determinar em que medida a mudança social vincula-se à implantação aqui do industrialismo em si e, em que medida, antes de tudo, as formas concretas daquela mudança social se ligam a sistemas sociais globais, como o indicado pelo conceito de capitalismo ou, ainda mais, ao modo específico como nele se insere, na periferia daquele sistema, a sociedade de classes em desenvolvimento no Brasil. Sem tratar de problemas como esse, procuramos por ora contribuir apenas para a caracterização das formas concretas pelas quais se está dando a mudança social no Brasil, nas suas vinculações com a industrialização e a urbanização.

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