Toda obra literária que não seja essencialmente ética – em um sentido, obviamente, que transcende infinitamente as banalidades que costumam se agregar a este conceito – é finalmente irrelevante. É o que quis dizer Elias Canetti ao denominar a quem toma para si a infinita responsabilidade da escrita de “Poeta”, em A consciência das palavras. Pois a essência da escrita é o testemunho de sua honestidade, sinceridade primigênia, do ato ético no qual escrever se constitui; o resto se dilui em circunstâncias e é devorado pelo tempo.
Estevan de Negreiros Ketzer, nesse seu livro O relevo da inscrição: po-éticas do corpo em Freud, Artaud e Derrida, faz, desde sempre, um pacto com essa sinceridade sine qua non da escrita. Ao trazer a vida da dialética para o próprio título, no qual o baixo-relevo é, igualmente, a expressão do alto-relevo, do altamente relevante da escritura, anuncia a vida do texto que seguirá.
Tal seguimento acompanha a linguagem em seus limites por assim dizer táteis. Essa tactibilidade, não tão simples de ser percebida nos tirantes quase-expressionistas das frases e dos autores, traduz, na verdade, uma expectativa: o autor, marcado em memória pela insanidade estranhamente sã de seus pacientes de outrora, e pela sanidade insana de tão lúcida de seu personagem principal Artaud, espera que o texto se materialize ante o leitor, com o leitor, no leitor, na carne do leitor, agora cúmplice de uma estranha aventura éticaescritural, em um processo para além da escrita, na escrição-inscritura de palavras testemunho de um universo e de um relevo abissal, no qual as multiplicidades dos tempos espasmódicos, ansiosos, ferais, revoltados, apontam para um ainda-não.
Ainda-não. Pois, na verdadeira literatura do Poetas canettianos, cada escrição verdadeira é uma inscrição definitiva, uma inscritura, e seu relevo é aquilo que corta a carne do mundo, mostrando que o tempo ainda não acabou, pois a justiça ainda não se concretizou.

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