Poema épico sem as qualidades da épica? Ou poema que sofre de “gravíssima falta de senso estético”, como assinalou José Veríssimo? Visão religiosa do mundo? Criação mítica? Fortes impressões deixadas pelo paraíso idílico no menino Durão que partiu daqui aos nove anos – e que jamais retornou ao Brasil?
Tudo isso é Caramuru – poema épico do descobrimento da Bahia, de Fr. José de Santa Rita Durão, publicado em 1781.
Trata-se de um poema do período neoclássico que reúne características clássicas e barrocas, sendo uma obra híbrida, esteticamente.
São 6.672 versos decassílabos, organizados em dez cantos, Embora Durão tenha usado como modelo, inegavelmente, Os Lusíadas, o poema tem como ponto de distanciamento da épica a falta da capacidade de síntese. Também não ocorre no poema a “capacidade de múltiplas sugestões no menor número de versos”, como observa Antonio Candido. Quanto ao conteúdo mítico próprio das grandes epopeias, o poema Caramuru mistura algumas alusões à mitologia greco-romana com o imaginário cristão, onipresente na trama épica.
A beleza da obra poética é questionada pela crítica atual, assim como é pálido o perfil do seu herói, pacífico e civilizador, sem força para alavancar a trama épica. Pode-se classificar o personagem principal desta epopeia como hibrido, concordando-se com Bosi quando afirma que Diogo Álvares Correia é “um misto de colono português e missionário jesuíta, síntese que não convence os conhecedores da história, mas que dá a medida justa dos valores de Frei José de Santa Rita Durão.” O herói tem nome de peixe. Caramuru é palavra de origem tupi que significa moreia.
Os indígenas assim chamaram Diogo, por ele ter escapado de um naufrágio, a nado. Mas há também o episódio em que Diogo Álvares assombrou os indígenas com um tiro de espingarda, o que conferiu ao nome Caramuru o significado de “filho do trovão”.
Caramuru e Paraguaçu oscilam entre lenda e registros históricos.

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