Tratados da terra e gente do Brasil é um conjunto de textos que se publicou pela primeira vez em 1925, como resultado dessa perspectiva, ou seja, uma escolha contemporânea, não sendo para seu autor, portanto, a unidade que se apresenta. Ao contrário, observando a trajetória de Fernão Cardim, vê-se que, sob a égide da Companhia de Jesus, ele atuou em diferentes funções e condições, algumas bem restritas, como quando foi preso na Inglaterra, e outras de maior autoridade e possibilidade interventiva, como quando provincial da Província do Brasil.
Fernão Cardim não está entre os jesuítas mais famosos no conhecimento do público brasileiro como Nóbrega, Anchieta ou Vieira, mas esse português nascido no Alentejo – Arcebispado de Évora – assumiu importantes funções na América portuguesa, onde, inclusive, veio a falecer em 1625.
Não se tem ao certo o ano de seu nascimento – 1548 ou 491 –, mas sabe-se que ingressou no Colégio da Companhia de Jesus em Évora no ano de 1556, completando ali seus estudos de Artes e Teologia. No mesmo colégio assumiu a função de ministro, e no Colégio de Coimbra foi adjunto do mestre de noviços. Já professo dos quatro votos jesuíticos – obediência, pobreza, castidade e o voto especial de obediência ao Papa –, foi designado secretário do padre visitador Cristóvão de Gouveia em 1582 para a visita que este faria ao Brasil. É importante observar que os padres visitadores da Companhia não se confundiam com os da Inquisição.
O visitador jesuíta tinha por função percorrer os espaços onde existissem missionários para dirimir suas dúvidas, surgidas no contato com outros povos, renovando os votos e a fé daqueles religiosos que estavam distantes das certezas europeias. Através dele, os missionários se informavam sobre as recentes deliberações das constituições jesuíticas, assim como os superiores – provinciais e mesmo o geral da companhia – tomavam conhecimento das novas experiências vividas, para que a Ordem pudesse refletir sobre como gerenciar as dificuldades da evangelização. Desse modo, podemos inferir que, como secretário, Cardim assumiria papel de escriba da viagem de Cristóvão de Gouveia, assessorando-o na mediação entre o mundo católico luso e o mundo gentio americano.

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