Há quem o chame de Eros, Kama, Philea ou Ahava. O Amor, esse personagem mítico, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. O Amor se descreve como perfeccionista e obcecado pelos detalhes, nada que o impeça de ser um bocado descuidado com as consequências dos sentimentos que provoca com suas flechas.
Assim, com uma linguagem poética e ao mesmo tempo muito bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios. Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio.
Mais do que uma história com um final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor, como acontece nas melhores famílias.

Confesso logo de cara que o proibido sempre me atraiu.
Faz parte da minha natureza transgredir, invadir, violar. Não me interessa desimpedir impedimentos, não necessito de acordos, não me aprazem os “a contento”, não sou de pedir licença, não estou nem aí para sorrisos hospitaleiros, não me venham com xícaras de chá. Estou, sim, belicosamente plantado no meio de olhos que não se devem olhar, corpos interditos, condições incompatíveis, atos ilícitos, corações desautorizados.
Tudo que é obstáculo me fascina, seja terra, abismo, pedra, qualquer tipo de intempérie, conflito, opinião alheia à minha vontade, ordem expressa, censura, segredo irrevelável, desvelo em demasia, ciúme de mulher, ira de homem, capricho de mãe ou voto de pai.
Sempre que posso driblar qualquer tipo de jurisprudência, me divirto. Sou um penetra. O melhor que já se viu. A prova disso é que acabo de invadir sua vida me apresentando como grande infrator, para agora então, de repente, lhe mostrar uma outra face, me vender de outro modo.
Quer saber? Também gosto de me descobrir bem-vindo, adoro me sentir convidado. Jamais subestimei o que é fácil. Está na mão? É comigo.

Deixe uma resposta